Você já sentiu aquele frio na barriga de decepcionar seus pais? Então este texto é para você. A gente cresce querendo o olhar de aprovação deles, e quando a vida pede que a gente vire à esquerda ou à direita do caminho que nos foi traçado, bate um medo enorme. Mas e se eu te dissesse que frustrar expectativas pode ser, na verdade, um ato profundo de amor — por você mesma?

A necessidade de aprovação começa cedo (e faz todo sentido)

Pensa comigo: você tinha uns sete, oito anos. Chegou em casa com uma nota boa e correu para mostrar para sua mãe ou seu pai. Aquela cena é quase universal, né? Não é à toa. Desde os primeiros anos de vida, a criança aprende que o amor e a aprovação dos pais estão profundamente conectados ao seu comportamento, às suas conquistas, às suas escolhas. É assim que o psiquismo se organiza.

Do ponto de vista psicanalítico, essa busca por reconhecimento parental é estruturante. O olhar do outro — especialmente do cuidador — é o espelho no qual a criança começa a se enxergar. Quando esse olhar brilha de orgulho, ela sente que é boa, capaz, amada. E essa sensação vai sendo internalizada ao longo dos anos, muitas vezes de forma inconsciente.

O problema é que, quando crescemos, esse mecanismo não some automaticamente. A gente continua, já adulta, buscando esse mesmo brilho no olhar dos pais. E quando percebe que vai tomar uma decisão diferente da esperada — mudar de carreira, não casar, não ter filhos, sair do país, escolher uma profissão “diferente” — aquele frio na barriga aparece. Aquele medo de decepcionar.

O peso das expectativas que carregamos sem perceber

Uma pesquisa publicada no Journal of Family Psychology apontou que filhos adultos que percebem alta expectativa parental relatam níveis significativamente maiores de ansiedade e medo do fracasso, mesmo quando já são independentes financeiramente e emocionalmente. Ou seja: o peso do que os pais esperam de nós não some com a maioridade. Ele fica. Às vezes por décadas.

E não é culpa dos pais, na maioria das vezes. Eles trilham um caminho para os filhos com amor genuíno. Querem que a gente sofra menos, que tenha segurança, que não cometa os erros que eles cometeram. O problema é que esse caminho é construído com base na visão de mundo deles, nas experiências deles, nos medos deles. E a gente é outra pessoa.

Quando um paciente chega ao consultório dizendo que está em uma carreira que não o realiza, mas que foi escolhida pela família, ou que está em um relacionamento que não o faz feliz porque “era o que todos esperavam”, estamos diante exatamente desse fenômeno. A vida sendo vivida para o outro, não para si.

E quando somos nós as mães? O outro lado do espelho

Aqui a conversa fica ainda mais rica. Porque quando a gente se torna mãe, automaticamente começa a construir um caminho imaginário para o filho. A gente sonha, planeja, projeta. E isso é lindo e humano. Mas quando esse filho vira à esquerda ou à direita desse caminho, bate uma frustração real. Um luto, inclusive.

Sim, luto. Porque a gente perde aquilo que imaginava. Não o filho — o filho está ali, inteiro. Mas a versão do filho que existia na nossa cabeça, essa vai embora. E isso dói. É legítimo que doa.

A questão é o que fazemos com essa dor. Se a gente a impõe ao filho como culpa, como cobrança, como silêncio gelado — ou se a gente acolhe, processa e abre espaço para que ele seja quem ele é.

“📱 Falo muito sobre vínculos familiares, expectativas e saúde emocional no Instagram @mariana.deluccia. Me segue lá e vem continuar essa conversa comigo!

Frustrar expectativas não é abandono — é autonomia

Existe uma confusão muito comum: a de que decepcionar os pais significa não amá-los. Não é verdade. Você pode amar profundamente alguém e ainda assim fazer escolhas diferentes das que essa pessoa esperava de você. Amor e autonomia não são opostos.

Na clínica, quando converso com pacientes nessa situação, costumo dizer: você precisa escolher o que é melhor para você. Não porque os pais estão errados em querer o seu bem, mas porque eles não moram dentro de você. Quem vive as consequências das suas escolhas é você. Quem acorda todo dia com a sua vida é você.

Isso não é egoísmo. É responsabilidade com a própria existência.

Como navegar esse processo com mais leveza

  • Nomeie o que você sente: Antes de tomar qualquer atitude, reconheça a emoção. Medo? Culpa? Vergonha? Dar nome ao sentimento já reduz a intensidade dele e abre espaço para pensar com mais clareza.
  • Diferencie culpa de responsabilidade: Culpa paralisa e pune. Responsabilidade move e cuida. Você pode se responsabilizar pela sua escolha sem se punir por ela. Pergunte-se: estou me sentindo culpada ou estou assumindo a responsabilidade pelo meu caminho?
  • Comunique com afeto e firmeza: Não precisa escolher entre ser honesta e ser gentil. Você pode dizer aos seus pais o que sente, o que escolheu e por quê — com respeito e com clareza. Muitas vezes, o que parece uma rejeição ao filho é, na verdade, medo do desconhecido. O diálogo pode transformar isso.
  • Permita-se fazer luto (se você é mãe): Se o seu filho tomou um caminho diferente do que você esperava, dê-se permissão para sentir a frustração. Não precisa fingir que está tudo bem. Mas depois de sentir, acolha. O amor maior é o que deixa o outro ser.
  • Busque apoio profissional: Esse é um dos temas mais delicados que existem, porque mexe com identidade, pertencimento e amor. Ter um espaço seguro para trabalhar isso — como a psicoterapia — pode fazer uma diferença enorme.

No fim, todo mundo quer ser visto de verdade

Pais querem que os filhos sejam felizes. Filhos querem ser amados do jeito que são. E às vezes, no meio de tanto amor, a gente se perde tentando agradar em vez de ser. A boa notícia é que esse ciclo pode ser transformado. Com consciência, com diálogo, com tempo e com cuidado.

Você não precisa escolher entre se amar e amar seus pais. Você pode fazer as duas coisas ao mesmo tempo. E quando você se permite ser quem você realmente é, muitas vezes os vínculos ficam até mais honestos e mais bonitos do que antes.

A vida não é uma linha reta. E tudo bem virar à esquerda ou à direita. O que importa é que o caminho seja seu.

E você, já precisou virar em uma direção diferente da que seus pais esperavam? Como foi esse processo para você? Com carinho, Mariana 💙

Mariana De Luccia Rivaben

Uma carreira sólida construída através de muito aprendizado com especial atenção a cada um de meus pacientes e alunos. >> Mestra em Distúrbios do Desenvolvimento pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. >> Especialista em Psicologia Hospitalar pela Santa Casa de Misericórdia de São Paulo. >> Especialista em Psicologia Clínica pelo CEP – Centro de Estudos Psicanalíticos. >> Atuação como docente do curso de Psicologia e Coordenadora da Clínica de Psicologia Aplicada no Centro Universitário Unifafibe.

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