Antes de levar seu filho à psicóloga, leia isso. Quando a criança começa a responder, a chorar por tudo ou a ter explosões que parecem não ter explicação, a primeira reação de muitas famílias é buscar um “conserto” para o comportamento dela. Mas e se eu te dissesse que, na maioria das vezes, a resposta não está na criança, e sim em nós?

“Ele tá mal educado” — mas será que é isso mesmo?

Imagina essa cena: você chega em casa depois de um dia exaustivo no trabalho, mal teve tempo de almoçar, ainda tem contas para pagar, e seu filho de 7 anos começa a fazer birra porque você não deixou ele usar o tablet. Ele grita, chora, bate o pé. Você perde a paciência, levanta a voz, e no final do dia pensa: “Esse menino precisa de ajuda, tá impossível.”

Essa cena é familiar? Pois é. Ela acontece em milhares de lares todos os dias. E o que muitos pais fazem a seguir é marcar uma consulta com psicólogo pedindo que alguém “resolva” o comportamento da criança. O problema é que essa abordagem parte de uma premissa que, na maioria das vezes, não é verdadeira: a de que o problema está na criança.

O que os estudos dizem sobre isso

A ciência já tem muito a dizer sobre esse tema. Uma pesquisa publicada no Journal of Child Psychology and Psychiatry apontou que o estilo parental — ou seja, a forma como os pais se relacionam com os filhos — é um dos fatores mais determinantes para o desenvolvimento emocional e comportamental das crianças. Mais do que genética, mais do que escola, mais do que qualquer fator externo isolado. Isso não é para culpar ninguém, tá? É para entender onde está o ponto de transformação real.

Crianças são como espelhos. Elas não têm ainda o repertório emocional que os adultos têm (e que muitos adultos também ainda estão desenvolvendo, sejamos honestos). Então o que elas fazem? Elas expressam, através do comportamento, aquilo que está acontecendo no ambiente emocional ao redor delas. Agressividade, choro excessivo, respostas grosseiras — muitas vezes são sinais de que algo no sistema familiar precisa de atenção.

Meu filho está me respondendo — o que ele está tentando me dizer?

Quando uma criança começa a responder com agressividade ou a ter comportamentos que parecem “fora do normal”, é sempre válido perguntar: o que mudou recentemente? Houve uma separação? Mudança de escola? Um bebê chegou na família? Os pais estão em conflito constante? Há alguém adoecido em casa?

Crianças não processam essas mudanças com palavras. Elas processam com o corpo, com o comportamento, com as emoções. E o que parece “mau comportamento” é, muitas vezes, um pedido de socorro muito bem disfarçado de birra.

Na minha prática clínica, é muito comum receber uma criança encaminhada pelos pais por “comportamento difícil” e, ao longo do processo, perceber que o trabalho mais importante acontece nas sessões de orientação parental — com os adultos da família, não com a criança.

“📱 Falo muito sobre comportamento infantil e parentalidade consciente no Instagram @mariana.deluccia. Me segue lá e vem fazer parte dessa conversa tão necessária!

Isso não é culpa dos pais — mas é responsabilidade deles

Preciso pausar aqui para fazer uma distinção muito importante: falar que o comportamento da criança tem relação com a dinâmica familiar não é o mesmo que culpar os pais. Nenhum pai ou mãe acorda de manhã pensando em prejudicar o filho. A maioria está fazendo o melhor que pode, com as ferramentas que tem, carregando as próprias histórias e feridas.

Mas responsabilidade e culpa são coisas diferentes. A culpa paralisa. A responsabilidade move. E quando entendemos que temos um papel central no desenvolvimento emocional dos nossos filhos, isso nos dá poder de mudança — não peso.

Muitas vezes, o que precisa ser “tratado” é a comunicação dentro de casa. O nível de estresse dos adultos. A forma como os conflitos do casal são (ou não são) gerenciados longe das crianças. A qualidade do tempo que passamos com nossos filhos — não a quantidade, mas a qualidade.

O que você pode fazer agora

  • Observe antes de reagir: Da próxima vez que seu filho tiver um comportamento que te irrite, respira fundo e se pergunte: “O que ele está sentindo agora? O que aconteceu hoje no dia dele — ou no meu?” Essa pausa de 3 segundos pode mudar completamente a qualidade da sua resposta.
  • Verifique o termômetro emocional da casa: Estresse financeiro, conflitos entre o casal, rotinas caóticas, adultos ansiosos — tudo isso afeta as crianças diretamente. Faça uma avaliação honesta do clima emocional da sua casa. Não para se julgar, mas para entender o contexto em que seu filho está crescendo.
  • Invista em orientação parental: Antes de levar seu filho ao psicólogo sozinho, considere buscar uma orientação parental ou uma terapia de família. Muitas vezes, quando os pais mudam a forma de se relacionar, o comportamento da criança muda junto — sem que ela precise de nenhuma intervenção direta.
  • Cuide de você também: Pai e mãe esgotados não conseguem oferecer regulação emocional para os filhos. Cuidar da sua saúde mental não é egoísmo — é a base de tudo. Terapia, grupos de apoio, momentos de descanso real: isso impacta diretamente a criança que você está criando.
  • Não romantize a ideia de “filho problema”: Rotular a criança como difícil, agressiva ou mal educada pode virar uma profecia que ela cumpre. As crianças internalizam o que ouvem sobre si mesmas. Troque o rótulo pela curiosidade: “O que está acontecendo com você, meu amor?”

Quando a psicóloga é, sim, necessária para a criança

Dito tudo isso, é importante esclarecer: existem situações em que a criança precisa, sim, de acompanhamento psicológico individual. Suspeitas de transtornos do desenvolvimento, traumas específicos, dificuldades escolares persistentes, luto — há contextos em que a intervenção direta com a criança é fundamental e não deve ser adiada.

O ponto aqui não é descreditar a psicoterapia infantil. É ampliar o olhar para que a busca por ajuda profissional não seja apenas um “conserto” da criança, mas uma oportunidade de transformação de todo o sistema familiar. E, muitas vezes, esse processo começa com os adultos.

Uma reflexão para levar com você

Criar filhos é um dos trabalhos mais complexos e mais bonitos da vida. Não existe manual perfeito, não existe pai ou mãe sem erros. Mas existe a disposição de olhar com honestidade para a própria história, para a própria forma de se relacionar, e perguntar: “O que eu posso fazer diferente?”

Se o comportamento do seu filho está te preocupando, ótimo — essa preocupação é um sinal de que você se importa. Agora canalize esse cuidado também para dentro de casa, para as relações, para o clima emocional que vocês constroem juntos todos os dias. É aí que a mágica acontece.

A criança que você tem hoje é, em grande parte, um reflexo do ambiente que ela vive. E ambientes podem ser transformados — com amor, com consciência e, quando necessário, com ajuda profissional.

Você já parou para pensar que o comportamento do seu filho pode estar te dizendo algo sobre o que ele precisa de você? Com carinho, Mariana 💙


Mariana De Luccia Rivaben

Uma carreira sólida construída através de muito aprendizado com especial atenção a cada um de meus pacientes e alunos. >> Mestra em Distúrbios do Desenvolvimento pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. >> Especialista em Psicologia Hospitalar pela Santa Casa de Misericórdia de São Paulo. >> Especialista em Psicologia Clínica pelo CEP – Centro de Estudos Psicanalíticos. >> Atuação como docente do curso de Psicologia e Coordenadora da Clínica de Psicologia Aplicada no Centro Universitário Unifafibe.

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