Você já sentiu vontade de tomar um remédio só para parar de sentir? Essa vontade é muito humana, muito compreensível, e eu não estou aqui para te julgar por isso. Mas preciso te contar algo importante: não dá para remediar a vida, e entender essa diferença pode mudar completamente a forma como você cuida de si mesma.

A armadilha do diagnóstico como atalho

Imagine a Ana. Ela perdeu o emprego há dois meses, está se sentindo para baixo, sem energia, chorando por qualquer coisa. Ela vai ao médico e a primeira coisa que pede é: “Você pode me receitar alguma coisa? Eu acho que estou com depressão.” O que a Ana está sentindo é real, é doloroso, é legítimo. Mas será que é depressão? Ou será que é a vida pedindo atenção?

Essa cena se repete todos os dias nos consultórios. E não é culpa de ninguém, viu? Vivemos numa cultura que quer resolver tudo rápido, que trata o desconforto emocional como um problema técnico que precisa de uma solução técnica. Mas emoções não funcionam assim.

Tristeza e depressão: irmãs que não são a mesma pessoa

Esse é um dos pontos que eu mais trabalho com os meus pacientes, porque a confusão entre tristeza e depressão é muito comum, e ela tem consequências sérias.

A tristeza é uma emoção. Ela aparece quando a vida nos apresenta perdas, frustrações, despedidas, mudanças difíceis. Ela tem um motivo identificável, ela oscila ao longo do dia, e ela faz parte do processo natural de elaboração de qualquer experiência difícil. Sentir tristeza é saudável. É humano. É necessário.

A depressão, por outro lado, é um transtorno de saúde mental com critérios clínicos específicos. Ela se caracteriza por humor deprimido persistente por pelo menos duas semanas, perda de interesse em atividades que antes davam prazer, alterações no sono, no apetite, na concentração, sentimentos de inutilidade e, em casos mais graves, pensamentos de morte. Segundo a Organização Mundial da Saúde, mais de 300 milhões de pessoas no mundo sofrem de depressão, e ela é uma das principais causas de incapacidade global. Ou seja, é um transtorno sério, que merece tratamento sério, incluindo medicação quando indicada.

Mas aqui está o ponto: nem toda tristeza é depressão, e nem todo sofrimento precisa de remédio.

Quando o remédio é a resposta certa, e quando não é

Eu sou absolutamente a favor da medicação psiquiátrica quando ela é necessária. Ela salva vidas. Ela permite que pessoas com transtornos reais consigam funcionar, trabalhar, se relacionar, existir com qualidade. Não existe nenhum preconceito da minha parte em relação a isso.

O problema é quando a medicação é usada como uma fuga do processo emocional que a vida está pedindo. Quando alguém passa por um luto, uma separação, uma demissão, um diagnóstico difícil, e busca um remédio para apagar esse sentimento, estamos falando de algo diferente. Estamos falando de evitar a vida.

E o que acontece quando a gente evita? O sentimento não some. Ele fica lá, guardado, comprimido, esperando a hora de aparecer de outro jeito: numa crise de ansiedade, num relacionamento que não funciona, num corpo que adoece, numa raiva que explode sem avisar.

“📱 Falo muito sobre saúde emocional e os mitos que cercam a psicologia no Instagram @mariana.deluccia. Me segue lá e vem fazer parte dessa conversa!

Viver e elaborar: o que isso significa na prática

Elaborar uma situação difícil não significa sofrer sem parar. Não significa que você precisa ficar meses mergulhada na dor sem buscar ajuda. Significa, na verdade, dar espaço para que o sentimento exista, seja compreendido, e possa ser integrado à sua história.

É aqui que a psicoterapia entra como uma ferramenta poderosa. Não para te dar respostas prontas, mas para te ajudar a encontrar as suas próprias. Para te acompanhar enquanto você atravessa o que precisa ser atravessado.

Porque sim, algumas coisas na vida precisam ser atravessadas, não contornadas.

O que você pode fazer quando a tristeza bater forte

  • Nomeie o que você está sentindo. Parece simples, mas é poderoso. Em vez de dizer “estou mal”, tente identificar: estou com medo? Estou com raiva? Estou com saudade? Estou me sentindo abandonada? Nomear a emoção já reduz sua intensidade, segundo estudos de neurociência afetiva com base nas pesquisas de Matthew Lieberman da UCLA.
  • Busque apoio terapêutico antes de buscar medicação. Se você está passando por uma situação difícil mas identificável, um processo terapêutico pode ser o primeiro passo. O terapeuta também pode te ajudar a avaliar se há necessidade de encaminhamento para um psiquiatra.
  • Respeite o seu tempo de elaboração. A sociedade quer que você esteja bem rápido. Mas luto, perda e dor têm o próprio ritmo. Dar tempo a si mesma não é fraqueza, é sabedoria.
  • Cuide do básico com carinho. Sono, alimentação, movimento e conexão social são pilares que sustentam a saúde emocional. Quando estamos mal, esses cuidados são os primeiros a cair, e são os primeiros que precisamos resgatar.
  • Evite o isolamento. A tristeza quer ficar sozinha, mas o isolamento a alimenta. Permita que pessoas de confiança estejam perto, mesmo que você não queira falar sobre o que está sentindo.

Quando de fato procurar um psiquiatra

Se os sintomas persistem por mais de duas semanas sem melhora, se você está sem conseguir trabalhar ou cuidar de si mesma, se há pensamentos de se machucar, ou se a tristeza não tem uma causa identificável, aí sim é fundamental buscar uma avaliação psiquiátrica. Esses são sinais de que pode haver um transtorno que precisa de intervenção especializada, e isso inclui medicação.

A chave é o diagnóstico correto, feito por um profissional de saúde mental, e não a automedicação emocional de tentar resolver com um remédio aquilo que a vida está pedindo para ser vivido.

A vida não tem atalho, mas tem companhia

Eu entendo profundamente a vontade de parar de sentir. Quando a dor é grande, qualquer saída parece válida. Mas o que eu aprendi ao longo de anos acompanhando pessoas em momentos muito difíceis, inclusive em contextos hospitalares e de adoecimento grave, é que as pessoas que atravessam o sofrimento saem mais inteiras do que as que tentam contorná-lo.

Não dá para remediar a vida. Mas dá para ser acompanhada enquanto você a vive. E isso faz toda a diferença.

Se você está passando por um momento difícil agora, te convido a considerar iniciar um processo terapêutico. Não porque você está “louca” ou “doente”, mas porque você merece um espaço só seu para entender o que está sentindo e encontrar o seu caminho.

Você já tentou usar alguma coisa, seja um remédio, uma distração, um hábito, para fugir de um sentimento difícil? Como foi essa experiência? Com carinho, Mariana 💙

Mariana De Luccia Rivaben

Uma carreira sólida construída através de muito aprendizado com especial atenção a cada um de meus pacientes e alunos. >> Mestra em Distúrbios do Desenvolvimento pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. >> Especialista em Psicologia Hospitalar pela Santa Casa de Misericórdia de São Paulo. >> Especialista em Psicologia Clínica pelo CEP – Centro de Estudos Psicanalíticos. >> Atuação como docente do curso de Psicologia e Coordenadora da Clínica de Psicologia Aplicada no Centro Universitário Unifafibe.

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