Você já percebeu que, antes mesmo de seu filho abrir a boca para pedir algo, você já foi lá e resolveu? Já comprou, já arrumou, já organizou, já antecipou tudo — com todo o amor do mundo. Esse gesto parece cuidado, parece proteção, mas pode estar, sem querer, roubando algo muito precioso do seu filho: a capacidade de desejar, buscar e conquistar.

A Falta Que a Gente Tenta Apagar — e Por Quê Isso Importa

Existe uma cena que se repete em muitos lares: a criança ainda nem terminou de pensar no que quer, e o pai ou a mãe já chegou com a solução na mão. O brinquedo novo antes do pedido. O lanche favorito antes da fome. O problema resolvido antes da frustração aparecer. Parece amor — e é amor, não tenho dúvida disso. Mas tem um efeito colateral que a gente raramente para para pensar.

Na psicanálise, existe um conceito fundamental que nos ajuda a entender isso: o desejo nasce da falta. Não da carência extrema, não do sofrimento desnecessário — mas de um espaço vazio que nos move, que nos faz querer, buscar, agir. Quando eliminamos completamente esse espaço na vida dos nossos filhos, eliminamos junto a mola que impulsiona o ser humano a se mover no mundo.

Jacques Lacan, um dos maiores pensadores da psicanálise, dizia que o desejo é estruturado exatamente por aquilo que nos falta. Não é poesia — é estrutura psíquica. É o que faz uma criança se esforçar para aprender a andar, para conquistar um amigo, para persistir num objetivo. Quando tudo já está dado antes mesmo de ser desejado, esse mecanismo simplesmente não se desenvolve.

Mas Isso Não É Negligência, É Amor — E Aí Está a Armadilha

Quero ser muito clara aqui: não estou falando de abandonar os filhos à própria sorte, nem de criar sofrimento artificial. Estou falando de algo muito mais sutil e muito mais comum do que parece. Estou falando daquela mãe que resolve o conflito com o coleguinha antes que o filho tente resolver sozinho. Do pai que compra o videogame antes mesmo de a criança economizar um centavo. Da família que antecipa cada necessidade com tanta eficiência que a criança nunca precisou esperar, nunca precisou tentar, nunca precisou falhar e tentar de novo.

Um estudo publicado no Journal of Child and Family Studies apontou que crianças criadas em ambientes de superproteção parental apresentam maiores índices de ansiedade, menor tolerância à frustração e dificuldades significativas de autonomia na vida adulta. Não é sobre ser um pai ou mãe ruim — é sobre entender que o conforto constante, paradoxalmente, pode gerar adultos muito desconfortáveis com os desafios da vida real.

Minha avó tinha um ditado que eu ouvia muito: “Tem tempo para sofrer.” E eu me pego pensando: mas até quando? Que tempo é esse que a gente empurra para frente? Porque a vida adulta não avisa quando vai chegar, e ela cobra tudo aquilo que a infância não ensinou.

O Adulto de Amanhã Começa na Criança de Hoje

Pense comigo: o adulto que não aprendeu a tolerar a frustração pequena de esperar por um brinquedo, como vai lidar com a frustração grande de uma promoção que não veio? O jovem que nunca precisou se esforçar para conquistar algo, como vai encontrar motivação para construir uma carreira, um relacionamento, um projeto de vida?

Não estamos falando de crianças mimadas no sentido pejorativo — estamos falando de adultos que genuinamente não desenvolveram as ferramentas internas para lidar com o mundo. E isso não é culpa deles. É resultado de um ambiente que, por amor, não deixou espaço para o crescimento.

📱 Falo muito sobre desenvolvimento infantil saudável e os bastidores da criação dos filhos no Instagram @mariana.deluccia. Me segue por lá e vem trocar ideias comigo — tem muito conteúdo que vai fazer sentido para o seu dia a dia como mãe ou pai.

O Que Fazer na Prática: Pequenas Faltas que Geram Grandes Conquistas

A boa notícia é que não precisa de grandes mudanças para começar a transformar isso. Pequenos ajustes no cotidiano já criam espaço para que o desejo e a autonomia floresçam. Veja algumas atitudes concretas:

  • Deixe o pedido acontecer antes da resposta: Antes de antecipar o que seu filho precisa, espere ele expressar o desejo. Esse momento de “quero” já é um exercício de autoconhecimento e comunicação que ele precisa desenvolver.
  • Permita a frustração pequena e esteja presente nela: Quando seu filho não consegue montar o brinquedo, resista ao impulso de montar por ele. Fique do lado, encoraje, mas deixe ele tentar. A frustração acompanhada de apoio é diferente de abandono — ela ensina que é possível superar.
  • Crie metas e conquistas reais para a idade dele: Pequenas responsabilidades, pequenas esperas, pequenos objetivos que ele precise se mover para alcançar. Pode ser guardar dinheiro para um brinquedo, ajudar em casa para ganhar um privilégio, ou simplesmente esperar a vez sem que você resolva antes.
  • Valide o sentimento sem resolver o problema imediatamente: “Eu sei que você está com raiva porque não conseguiu” é muito diferente de já chegar com a solução. Nomear o sentimento sem apagar a situação ensina regulação emocional e resiliência.
  • Reveja suas próprias feridas: Muitas vezes, a gente supre a falta do filho porque não suporta ver ele sofrer — e isso tem a ver com as nossas próprias histórias. Refletir sobre isso, talvez com apoio terapêutico, é um presente que você dá para si e para seu filho.

Amar É Também Saber Não Resolver Tudo

Criar filhos que se tornem adultos capazes, resilientes e motivados não é sobre dar menos amor — é sobre dar um amor mais consciente. Um amor que acredita na capacidade do filho de enfrentar o desconforto. Um amor que diz: “Eu estou aqui, mas você consegue.” Um amor que entende que a falta, quando bem acompanhada, não machuca — ela constrói.

A maior herança que podemos deixar para nossos filhos não está nas coisas que compramos ou nos problemas que resolvemos por eles. Está na confiança que depositamos na capacidade deles de desejar, buscar e conquistar. Está no espaço que abrimos para que eles descubram quem são e o que querem — sem que a gente já tenha respondido isso por eles.

Amanhã, quando seu filho for adulto, ele vai precisar de desejo para se mover. E o desejo, como a semente, só nasce quando há um pouquinho de terra — um pouquinho de falta — para se enraizar.

E você, consegue identificar algum momento em que antecipa demais as necessidades do seu filho? Me conta nos comentários — adoro saber como isso aparece na vida real de cada família. Com carinho, Mariana 💙

Mariana De Luccia Rivaben

Uma carreira sólida construída através de muito aprendizado com especial atenção a cada um de meus pacientes e alunos. >> Mestra em Distúrbios do Desenvolvimento pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. >> Especialista em Psicologia Hospitalar pela Santa Casa de Misericórdia de São Paulo. >> Especialista em Psicologia Clínica pelo CEP – Centro de Estudos Psicanalíticos. >> Atuação como docente do curso de Psicologia e Coordenadora da Clínica de Psicologia Aplicada no Centro Universitário Unifafibe.

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