Aquela crítica que doeu? Ela não é sobre você — e a ciência explica o porquê
Você já estava se sentindo bem, confiante, no seu ritmo — e aí veio aquele comentário que desandou tudo. “Você está gorda demais.” “Pra que correr tanto? Isso faz mal.” “Você está muito magra, parece doente.” Em segundos, aquela leveza sumiu. Mas e se eu te dissesse que esse comentário não diz absolutamente nada sobre você? Que ele revela, na verdade, muito mais sobre quem o fez?
O comentário que machuca tem endereço errado
Vamos começar com uma cena do cotidiano. Você posta uma foto correndo, feliz, suada, realizada. Nos comentários, aparece aquela pessoa — pode ser uma conhecida, um familiar, alguém da turma — com o clássico: “Ai, mas correr tanto assim não faz mal? Cuida dessa joelho!” Ou então você vai a uma reunião de família depois de meses cuidando da sua alimentação e ouve: “Nossa, você não está um pouco magra demais?”
A primeira reação é engolir o comentário, revirar por dentro, questionar tudo o que estava fazendo. Mas aqui vai uma virada de chave importante: o que saiu de ruim não é de você. É de quem falou.
Na psicanálise, esse mecanismo tem nome. Chamamos de projeção — quando uma pessoa não consegue lidar com algo dentro dela mesma e, inconscientemente, joga esse conteúdo para fora, atribuindo ao outro aquilo que não suporta em si mesma. Freud descreveu esse processo ainda no século XIX, e ele continua sendo um dos mecanismos de defesa mais presentes nas relações humanas até hoje.
A insatisfação do outro fala mais alto do que parece
Pensa comigo: uma pessoa que está em paz com o próprio corpo, com suas escolhas de vida, com sua rotina — ela sente necessidade de criticar a sua? Geralmente, não. Quem está bem consigo mesmo torce pelo outro, se inspira, pergunta com curiosidade genuína.
Agora, quem está insatisfeito com o próprio corpo vai enxergar o seu com lupa. Quem não consegue sair do sedentarismo vai criticar quem corre, quem malha, quem dança — porque essa atitude do outro funciona como um espelho incômodo. Não é raiva de você. É a dor que essa pessoa sente ao se ver refletida no que você representa.
Um estudo publicado no Journal of Personality and Social Psychology mostrou que pessoas com baixa autoestima tendem a fazer mais julgamentos negativos sobre os outros como forma de regular emoções difíceis sobre si mesmas. Ou seja: a crítica que te atinge tem origem na ferida interna de quem a proferiu.
Isso não significa que devemos ter pena ou ignorar completamente o impacto que essas palavras causam — porque elas doem, e isso é real. Mas significa que você não precisa carregar o que não é seu.
Por que a gente tende a acreditar nas críticas?
Se não é nosso, por que dói tanto? Porque somos seres relacionais. Desde bebês, aprendemos sobre nós mesmos pelo olhar do outro — e isso fica gravado fundo. Quando alguém lança um julgamento, especialmente alguém próximo, ele ativa camadas antigas de como aprendemos a nos ver.
Além disso, vivemos numa cultura que nos ensina a duvidar de nós mesmos. Especialmente mulheres, que crescem sendo avaliadas pelo corpo, pela aparência, pelo comportamento. Então quando a crítica chega, ela cai num terreno já preparado para absorvê-la como verdade.
O trabalho psicológico — e também o trabalho pessoal do dia a dia — é justamente fortalecer esse terreno interno para que você consiga reconhecer: “Isso que chegou até mim não é meu. Posso devolver.”
“📱 Falo muito sobre autoconhecimento, corpo e relações que nos adoecem no Instagram @mariana.deluccia. Me segue lá e vem continuar essa conversa comigo — tem muito mais por lá!“
Como se proteger sem endurecer o coração
A ideia não é criar uma armadura ou deixar de se importar com as pessoas. É desenvolver o que chamamos de diferenciação — a capacidade de saber onde você termina e onde o outro começa. Isso é saúde psíquica.
- Antes de absorver uma crítica, pergunte: isso é verdade ou é a dor de quem falou? Não toda crítica merece ser incorporada. Algumas merecem apenas ser observadas de longe, como quem vê uma nuvem passar.
- Observe o contexto de quem critica. Essa pessoa está bem com ela mesma? Tem hábitos que a satisfazem? Está em paz com o próprio corpo? Se a resposta for não, o comentário diz muito mais sobre a vida dela do que sobre a sua.
- Nomeie o que sentiu, mas não deixe virar identidade. Você pode dizer “aquilo me machucou” sem dizer “aquilo prova que há algo de errado comigo.” Sentir a dor é humano. Transformar a crítica alheia em verdade sobre si é um passo que você pode escolher não dar.
- Fortaleça sua narrativa interna. Quem você é, o que você escolhe, como você cuida do seu corpo — isso precisa ter uma âncora dentro de você, não nos comentários dos outros. Diários, terapia, conversas com pessoas que te fazem bem: tudo isso constrói essa âncora.
- Permita-se não responder. Nem toda provocação precisa de uma explicação sua. Às vezes, o silêncio é o ato mais poderoso de autorrespeito que existe.
Você não precisa provar nada para ninguém
Se você corre, é porque faz bem para você. Se cuida da alimentação, é porque escolheu isso. Se está no seu processo, no seu tempo, no seu corpo — isso é suficiente. Você não precisa da aprovação de quem ainda não encontrou paz com a própria vida para validar as suas escolhas.
Lembro de uma paciente que me disse certa vez: “Eu parei de correr por causa dos comentários da minha família. Ficavam dizendo que era exagero.” Quando ela voltou para a terapia meses depois, o que ela lamentava não era ter ouvido a família — era ter deixado de fazer algo que a fazia feliz por causa de uma dor que não era dela.
Não deixe que a insatisfação do outro roube o que é seu. Seu movimento, sua conquista, seu processo — esses são seus. E ninguém tem autoridade para diminuí-los, a não ser que você empreste essa autoridade.
Cuide do que entra
Desenvolver essa consciência é um processo. Não acontece da noite para o dia, e não significa que você vai deixar de sentir. Significa que, aos poucos, você vai conseguir reconhecer mais rapidamente quando uma crítica pertence ao outro — e vai ter mais recursos para não deixá-la pousar em você como se fosse verdade.
A psicologia nos ensina que o fortalecimento do eu não é sobre ficar insensível ao mundo. É sobre saber distinguir o que é seu do que é do outro. E essa distinção, minha amiga, é libertadora.
Da próxima vez que um comentário chegar e apertar o peito, respira fundo e lembra: o que saiu de ruim não é de você. É de quem falou. Você pode simplesmente não pegar.
E você, já viveu uma situação em que percebeu que a crítica dizia mais sobre o outro do que sobre você? Me conta nos comentários — adoro saber como essas reflexões chegam na vida real de cada uma. Com carinho, Mariana 💙







