Quando seu filho adoece: como ser a âncora emocional que ele precisa sem se afogar por dentro
Seu filho está doente, os exames estão marcados, e por dentro você sente aquele aperto no peito que parece não ter fim. Mas ele te olha, e você respira fundo, sorri, e diz “vai ficar tudo bem”. Esse momento, tão simples e tão imenso ao mesmo tempo, é um dos maiores atos de amor que uma mãe pode oferecer.
A lição que aprendi com a minha própria mãe
Eu preciso te contar uma história pessoal que mudou completamente a forma como eu entendo o papel das mães em momentos de doença dos filhos. Certa vez, ainda jovem, tive uma suspeita de uma doença mais grave. Precisei passar por vários exames invasivos, aqueles que a gente já sente o coração apertar só de pensar. E eu me lembro de olhar para a minha mãe durante todo esse processo e pensar: ela não está preocupada? Ela parecia plena, tranquila, presente. Eu estava morrendo de medo, triste, angustiada. E ela, serena.
Quando tudo passou, perguntei a ela, aliviada mas intrigada: “Mãe, você não estava preocupada? Nem parecia triste.” E ela me olhou e disse algo que ficou gravado em mim para sempre: “Mariana, eu estava despedaçada por dentro. Mas se eu mostrasse isso para você, como você ficaria?”
Aquela frase simples encapsulou uma das maiores verdades da psicologia do desenvolvimento e da saúde: quando a mãe desmorona, a criança perde o chão.
Por que o estado emocional da mãe impacta tanto a criança doente?
Isso não é apenas intuição materna. A ciência confirma. Estudos na área de psico-oncologia pediátrica e psicologia hospitalar mostram que o nível de ansiedade dos cuidadores, especialmente das mães, está diretamente relacionado ao nível de ansiedade e ao enfrentamento da criança durante procedimentos médicos. Uma revisão publicada no Journal of Pediatric Psychology aponta que crianças cujos pais demonstram maior regulação emocional durante hospitalizações apresentam melhor adaptação ao ambiente hospitalar e menor percepção de dor durante procedimentos invasivos.
Isso acontece porque as crianças, especialmente as menores, usam o rosto e o corpo da mãe como referência para entender se o mundo é seguro ou perigoso. Esse fenômeno é chamado de referenciação social: antes de decidir como reagir a uma situação nova ou ameaçadora, a criança olha para o adulto de referência e calibra sua própria resposta emocional. Se a mãe parece assustada, a criança entende que há motivo real para o medo. Se a mãe transmite segurança, mesmo que fabricada com muito esforço, a criança encontra base para se acalmar.
Mas e o sofrimento da mãe? Ele vai para onde?
Aqui está o ponto que eu preciso que você ouça com muito cuidado: segurar as emoções na frente do filho não significa fingir que não sente nada, e muito menos engolir tudo sozinha. A minha mãe estava despedaçada por dentro. Ela provavelmente chorou quando eu não estava olhando. Provavelmente desabou com alguém de confiança, rezou, pediu ajuda. E está tudo bem. Mais do que isso: é necessário.
Na psicologia, chamamos isso de regulação emocional, que é a capacidade de reconhecer, processar e expressar as emoções de forma adequada ao contexto. Não se trata de reprimir o sofrimento, mas de encontrar os espaços certos para ele. Porque uma mãe que nunca processa sua própria dor adoece também, e aí a criança perde não só o chão, mas a âncora inteira.
Segundo dados da Organização Mundial da Saúde, cuidadores de crianças com doenças crônicas ou graves têm até três vezes mais risco de desenvolver transtornos de ansiedade e depressão do que a população geral. Isso reforça que cuidar de quem cuida não é luxo, é urgência.
📱 Falo muito sobre regulação emocional, maternidade e saúde mental no Instagram @mariana.deluccia. Vem me acompanhar por lá e fazer parte dessa conversa tão necessária.
Como ser a âncora emocional do seu filho sem se afogar
Então, na prática, como fazer isso? Como segurar o chão quando o próprio chão está tremendo? Aqui vão alguns caminhos que funcionam, tanto para você quanto para o seu filho:
- Valide os sentimentos do seu filho sem amplificar o medo. Dizer “eu sei que dói, eu sei que é assustador, e eu estou aqui com você” é muito diferente de dizer “meu Deus, coitado, que situação horrível”. A primeira frase acolhe. A segunda confirma que há motivo para o desespero. Você pode reconhecer a dor sem catastrofizar.
- Cuide das suas emoções fora do campo de visão do seu filho. Chore no banheiro, ligue para uma amiga, escreva no diário, procure um psicólogo. Esses espaços são seus e são sagrados. Processar a dor em outro lugar não significa que você está fingindo ou sendo falsa com seu filho. Significa que você está sendo estratégica no cuidado.
- Use linguagem simples e honesta adaptada à idade. Crianças não precisam saber de tudo, mas precisam saber o suficiente para não inventar histórias piores na cabeça delas. “Você vai fazer um exame que pode doer um pouquinho, mas vai passar rápido e eu vou estar do seu lado” é muito mais tranquilizador do que o silêncio ou a mentira.
- Mantenha rotinas sempre que possível. Mesmo dentro de um hospital, mesmo em casa durante uma doença, pequenas rotinas como a história antes de dormir, a música favorita, o brinquedo de sempre, funcionam como âncoras de segurança para a criança e sinalizam que a vida continua.
- Peça ajuda sem culpa. Você não precisa ser a única âncora o tempo todo. Pai, avó, tia de confiança: construir uma rede de suporte para o seu filho também é cuidar dele. E construir uma rede de suporte para você mesma é cuidar de quem cuida.
Ser forte não é não sentir. É sentir e ainda assim aparecer
A minha mãe não era de pedra. Ela era humana, assustada, cheia de amor e de medo ao mesmo tempo. Mas ela fez uma escolha consciente: a de ser o que eu precisava naquele momento. Isso não a tornou menos autêntica. Tornou-a uma das pessoas mais corajosas que eu já conheci.
E é isso que a psicologia nos ensina sobre resiliência parental: não é a ausência de sofrimento, é a capacidade de funcionar apesar dele. É aparecer para o seu filho mesmo quando você está com o coração partido. É dizer “vai ficar tudo bem” mesmo sem ter certeza, porque a certeza que ele precisa não é sobre o diagnóstico, é sobre você. Sobre o fato de que você está ali, e que enquanto você estiver, ele não está sozinho.
Se você está passando por isso agora, com um filho doente, com exames marcados, com noites sem dormir e um sorriso fabricado de dia, eu quero que você saiba: você está fazendo o mais difícil e o mais bonito. E você também merece cuidado.
Você já viveu um momento assim, de segurar o chão quando estava desmoronando por dentro? Como foi para você? Com carinho, Mariana 💙







