Você já parou para observar como pai e mãe reagem de formas completamente diferentes diante do mesmo momento com os filhos? Uma cena simples, como uma criança tentando descer do sofá, pode revelar algo profundo sobre os papéis que cada um ocupa no desenvolvimento infantil. E não é por acaso, não é por capricho, é neurociência, é psicanálise, é vida real acontecendo na sua sala de estar.
A cena que me fez pensar em tudo isso
Certa vez, aqui em casa, meus filhos pequenininhos ficavam subindo e descendo do sofá sem parar. E eu, confesso, sempre intervinha. Tirava, redirecionava, colocava almofadas no chão, ficava de olho. O medo de se machucar falava mais alto em mim. Até que um dia cheguei na sala e encontrei meu marido fazendo algo completamente diferente: ele estava ensinando as crianças a descerem do sofá com segurança. Com calma, com paciência, mostrando o movimento certo, o jeito de virar o corpo, de apoiar os pés. E eu fiquei ali parada, olhando, com aquela mistura de “por que eu não pensei nisso?” e “como ele é diferente de mim nessa hora”. Essa cena simples encapsula algo que a psicologia estuda há décadas: a função paterna e a função materna são diferentes, complementares e igualmente essenciais para o desenvolvimento saudável dos nossos filhos.
Mãe protege, pai lança: entendendo os instintos
A mãe, de forma geral, carrega um instinto fortíssimo de proteção. Esse instinto tem raízes biológicas, evolutivas e também psíquicas. É a mãe que, na maioria das culturas e das histórias da humanidade, foi a figura de acolhimento, de colo, de segurança. Ela quer manter o filho perto, protegido, a salvo de qualquer risco. E isso é lindo. É necessário. É o que constrói o vínculo de apego seguro nos primeiros anos de vida.
Mas o pai traz algo diferente. Ele olha para o mesmo sofá e pensa: “Como eu ensino meu filho a resolver esse desafio?” Enquanto a mãe tende a evitar o risco, o pai tende a preparar a criança para enfrentá-lo. E olha que coisa fascinante: pesquisas em neurociência do desenvolvimento mostram que crianças que têm uma presença paterna ativa apresentam maior tolerância à frustração, melhor regulação emocional e mais habilidades de resolução de problemas ao longo da vida. Um estudo publicado no Journal of Family Psychology (2019) apontou que o envolvimento paterno consistente está diretamente associado a menor índice de ansiedade e maior autoconfiança em crianças na fase escolar. Não é pouca coisa.
A função paterna vai muito além de “brincar de lutinha”
Existe um estereótipo de que o pai é aquele que chega em casa, brinca um pouco, faz a criança rir e pronto. Mas a função paterna, do ponto de vista psicanalítico e do desenvolvimento, é muito mais rica do que isso. O pai representa, simbolicamente, a entrada no mundo. Ele é a figura que apresenta a criança à realidade externa, às regras, aos limites, à sociedade. Enquanto a mãe cria um espaço de pertencimento e segurança, o pai aponta para o horizonte e diz: “Você é capaz de ir até lá.”
Isso não significa que o pai não acolhe ou que a mãe não estimula autonomia. Cada família tem sua dinâmica única e maravilhosa. Mas quando falamos em funções, estamos falando de posições psíquicas que precisam existir no desenvolvimento infantil, independentemente de quem as exerce. Em famílias homoafetivas, monoparentais ou com configurações diversas, essas funções também existem e são desempenhadas de formas criativas e igualmente válidas.
“📱 Falo muito sobre desenvolvimento infantil e parentalidade consciente no Instagram @mariana.deluccia. Vem me acompanhar por lá e trazer suas dúvidas, adoro conversar com vocês sobre esses temas que fazem parte do nosso dia a dia!“
O que acontece quando falta a função paterna?
Quando a função paterna está ausente ou muito apagada, seja pela ausência física do pai, seja por uma dinâmica familiar em que essa posição nunca é ocupada por ninguém, a criança pode apresentar algumas dificuldades. Entre elas: maior dificuldade em lidar com limites, tendência à dependência excessiva, baixa tolerância à frustração e dificuldade em se lançar ao novo. Não estou dizendo isso para culpar ninguém. Longe disso. Estou dizendo porque compreender essas dinâmicas nos ajuda a agir de forma mais consciente, seja como mãe, como pai, como avó, como cuidador.
E aqui vai um ponto importante: a mãe também pode exercer a função paterna quando necessário. Da mesma forma que o pai pode e deve oferecer acolhimento e colo. O que precisamos é que ambas as funções estejam presentes na vida da criança, de alguma forma, por alguém.
Dicas práticas para fortalecer a função paterna no dia a dia
- Deixe o pai errar junto com a criança: Resistir ao impulso de corrigir ou intervenir quando o pai está com os filhos é um presente enorme. Ele tem seu próprio jeito, e esse jeito também é válido. A criança aprende com as duas abordagens.
- Incentive momentos de desafio supervisionado: Subir em árvores, descer escorregadores, montar brinquedos, cozinhar algo simples. Atividades que envolvam um pequeno risco calculado são fundamentais para desenvolver autonomia e autoconfiança. O papel do adulto é estar presente, não eliminar o desafio.
- Converse sobre os papéis que cada um ocupa: Em casal ou em família ampliada, é saudável conversar sobre como cada adulto contribui para o desenvolvimento da criança. Sem competição, sem julgamento, com curiosidade genuína sobre o que cada um traz de especial.
- Valorize as diferenças de abordagem: Quando seu parceiro faz diferente de você, antes de corrigir, pergunte-se: isso é perigoso de verdade ou apenas diferente do meu jeito? Muitas vezes, o diferente é exatamente o que a criança precisa naquele momento.
- Cuide da sua própria relação com os limites: Mães muito ansiosas tendem a superproteger. Se você percebe que o medo de que seu filho se machuque está impedindo o desenvolvimento da autonomia dele, pode ser um sinal de que vale conversar com uma psicóloga sobre isso. Não há nada de errado em pedir ajuda.
Criar filhos para o mundo, não para a gente
No fim das contas, aquela cena do sofá me ensinou algo que eu carrego até hoje: nosso papel como pais e mães não é evitar que nossos filhos caiam. É ensiná-los a se levantar. É mostrar que o mundo tem desafios, sim, mas que eles têm recursos para enfrentá-los. A mãe dá o colo depois da queda. O pai ensina a técnica para cair menos. E juntos, criam uma criança que sabe que pode contar com amor e com preparo.
Que a gente possa honrar as duas funções, com leveza, com consciência e com muito amor. Porque no final, o que nossos filhos precisam é saber que têm alguém que os protege e alguém que acredita que eles são capazes. E que, de preferência, essas duas certezas venham da mesma família.
E você, consegue identificar como essas duas funções aparecem na sua família? Quero muito saber! Com carinho, Mariana 💙







