Você já saiu de um relacionamento, seja amoroso, de amizade ou profissional, com aquela sensação de que a pessoa que você conheceu no começo simplesmente sumiu? Que em algum momento ela virou outra? A verdade é que ela não virou outra. Ela apenas revelou quem sempre foi. E o segredo para enxergar isso antes está em saber onde olhar.

Ações são ensaiadas. Reações são verdadeiras.

Pensa comigo: quando alguém quer causar uma boa impressão, o que ela faz? Escolhe as palavras com cuidado, controla a postura, sorri no momento certo, diz o que acredita que você quer ouvir. Tudo isso é completamente humano e não significa que a pessoa é falsa. Significa que ela está gerenciando a imagem que quer projetar, algo que todos nós fazemos o tempo todo.

Esse processo tem até nome na psicologia: é chamado de gerenciamento de impressões, um conceito amplamente estudado a partir do trabalho do sociólogo Erving Goffman, que descreveu a vida social como uma espécie de teatro, onde cada um de nós assume papéis e controla o que o outro vê. Não há nada de errado nisso. O problema é quando confundimos o personagem com a pessoa.

As ações são, em grande parte, deliberadas. A pessoa escolhe o que vai falar, como vai agir, qual versão de si mesma vai apresentar. Mas as reações acontecem antes que o cérebro tenha tempo de organizar tudo isso. Elas surgem do sistema límbico, a parte do nosso cérebro responsável pelas emoções, que responde muito mais rápido do que o córtex pré-frontal, aquele que planeja e raciocina. Em outras palavras: a reação aparece antes da máscara ter tempo de ser colocada.

O que observar nas reações de alguém

Não estou falando de ficar espionando ninguém ou criando situações para testar pessoas. Estou falando de prestar atenção no que já acontece naturalmente no cotidiano de qualquer relacionamento. Observe como alguém reage quando:

  • Ouve um não, seja de você, de um garçom, de um colega de trabalho
  • É contrariada em uma opinião, especialmente em público
  • Perde um jogo, uma discussão, uma oportunidade
  • Recebe uma crítica, mesmo que construtiva e gentil
  • Alguém discorda dela com respeito
  • As coisas simplesmente não saem como planejado

É nessas situações que os padrões emocionais mais profundos aparecem. Uma pessoa que se torna agressiva quando contrariada, que pune com silêncio quando ouve um não, que humilha quando perde, está mostrando algo muito importante sobre como ela lida com frustração, com limites e com o outro.

Um estudo publicado no Journal of Personality and Social Psychology mostrou que a tolerância à frustração e a forma como as pessoas regulam emoções negativas são preditores muito mais confiáveis da qualidade dos relacionamentos a longo prazo do que traços de personalidade positivos observados em momentos de bem-estar. Em outras palavras: a ciência confirma o que a experiência já nos ensinou.

“📱 Falo muito sobre relacionamentos, saúde emocional e padrões que nos moldam no Instagram @mariana.deluccia. Me segue lá e vem fazer parte dessa conversa!

Isso não é julgamento. É leitura emocional.

Preciso fazer uma pausa importante aqui, porque não quero que você saia desse texto olhando para as pessoas com lupa e julgando cada reação como se fosse uma sentença. Todos nós temos dias ruins. Todos nós já reagimos de formas que não nos orgulhamos. A questão não é o episódio isolado, mas o padrão.

Se uma pessoa reage mal uma vez quando está exausta e depois reconhece, pede desculpas e reflete sobre isso, isso é humanidade. Se ela reage da mesma forma repetidamente, sem reflexão, sem responsabilidade, sem mudança, isso é um padrão. E padrões nos dizem muito sobre a estrutura emocional de alguém.

Na psicanálise, falamos muito sobre como os mecanismos de defesa funcionam justamente nessas brechas, nesses momentos em que o ego é ameaçado. A pessoa que projeta a culpa sempre no outro, a que se torna vítima diante de qualquer crítica, a que ataca quando se sente vulnerável, todas essas são formas de o psiquismo se proteger. Conhecer esses mecanismos nos ajuda a ter mais compaixão e, ao mesmo tempo, mais clareza.

Como aplicar isso na sua vida de forma saudável

  • Observe sem julgar de imediato: quando perceber uma reação intensa em alguém, anote mentalmente sem tirar conclusões precipitadas. Espere para ver se é um padrão ou um momento pontual.
  • Preste atenção em como você se sente após essas reações: seu corpo registra muito antes da sua mente racionalizar. Sensação de encolhimento, ansiedade ou medo após uma reação da outra pessoa são sinais importantes que merecem atenção.
  • Observe também as suas próprias reações: esse exercício é poderoso quando dirigido para dentro também. Como você reage quando é contrariada? Quando ouve um não? Essa autoobservação é o começo de uma regulação emocional mais madura.
  • Diferencie reação de caráter: uma reação ruim não define uma pessoa por completo, mas um padrão de reações que machucam e nunca são reconhecidas diz muito sobre a disponibilidade emocional daquele vínculo.
  • Use isso para construir vínculos mais honestos: quando você entende como alguém reage às adversidades, você passa a ter expectativas mais realistas e pode escolher com mais consciência em quem investir emocionalmente.

Conhecer alguém é um processo, não um evento

A gente costuma achar que conhece uma pessoa depois de algumas conversas, de alguns encontros, de histórias compartilhadas. Mas conhecer alguém de verdade é um processo que se revela ao longo do tempo, especialmente nos momentos difíceis. É quando a vida aperta que as camadas mais profundas aparecem.

Isso não significa que você precisa criar crises para testar as pessoas. A vida já faz isso por conta própria. Basta você estar presente e atenta, não com desconfiança, mas com curiosidade genuína sobre quem é aquela pessoa além da imagem que ela cuida de projetar.

E lembre-se: esse olhar também serve para você mesma. Quem você se torna quando as coisas não saem como você quer? Essa pergunta, respondida com honestidade, pode ser um dos maiores presentes que você se dá. Porque o autoconhecimento começa exatamente aí, naquele momento em que a máscara escorrega e você se vê de verdade.

Relacionamentos saudáveis não são construídos com pessoas perfeitas. São construídos com pessoas que se conhecem, que reconhecem suas reações, que se responsabilizam por elas e que estão dispostas a crescer. Esse é o tipo de vínculo que vale cultivar.

E você, já percebeu algum padrão nas reações de alguém próximo a você, ou até nas suas próprias? Me conta nos comentários, adoro trocar sobre isso.

Com carinho, Mariana 💙

 

Mariana De Luccia Rivaben

Uma carreira sólida construída através de muito aprendizado com especial atenção a cada um de meus pacientes e alunos. >> Mestra em Distúrbios do Desenvolvimento pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. >> Especialista em Psicologia Hospitalar pela Santa Casa de Misericórdia de São Paulo. >> Especialista em Psicologia Clínica pelo CEP – Centro de Estudos Psicanalíticos. >> Atuação como docente do curso de Psicologia e Coordenadora da Clínica de Psicologia Aplicada no Centro Universitário Unifafibe.

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