Você já percebeu que, sem querer, pode estar impedindo seu filho de crescer? A gente ama tanto que resolve tudo antes mesmo de eles tentarem. Mas será que esse amor em excesso está atrapalhando o desenvolvimento deles? Vem comigo entender isso com carinho e sem culpa.

Aquele dedinho apontando e a gente já saindo correndo

Cena clássica: seu bebê aponta para algo, faz aquele barulhinho e você, num reflexo automático de amor, já vai lá buscar. Nem espera ele tentar falar, tentar se expressar, tentar comunicar. E faz todo sentido, né? É instinto de mãe, de pai, de cuidador. A gente não suporta ver aquela criaturinha pequenininha frustrada por um segundo sequer.

Mas sabe o que acontece quando a gente faz isso repetidamente? A criança aprende, de forma muito sutil, que não precisa se esforçar para se comunicar. Que alguém vai resolver antes. E isso, que começa com um dedinho apontando, vai crescendo junto com ela.

Estudos na área do desenvolvimento da linguagem já apontam que a superproteção parental está associada a atrasos no desenvolvimento da fala e da comunicação. Uma pesquisa publicada no Journal of Child Language mostrou que crianças cujos cuidadores antecipam constantemente suas necessidades tendem a apresentar menor iniciativa comunicativa, justamente porque o ambiente não exige que elas se expressem. Ou seja, o amor que a gente acha que está ajudando pode, sem querer, estar atrasando.

Na escola, a história se repete

Aí a criança cresce, vai para a escola, e começa uma nova fase de conflitos, de brigas com coleguinhas, de reclamações de professoras, de situações difíceis. E o que a gente faz? Liga para a mãe do outro. Vai à diretoria. Resolve. Rápido. Eficiente. Com toda a boa intenção do mundo.

Mas pensa comigo: quando a gente resolve tudo, o que a criança aprende? Que ela não é capaz. Que os problemas dela são grandes demais para ela. Que precisa de um adulto para dar conta. E vai crescendo com essa crença guardada bem fundo, sem nem perceber.

Não estou dizendo que a gente deve abandonar os filhos à própria sorte, longe disso. Existem situações que exigem intervenção imediata dos pais, especialmente quando há risco físico, emocional ou psicológico real. Bullying grave, situações de abuso, conflitos que fogem da capacidade de resolução da criança pela idade e maturidade, tudo isso pede a presença ativa dos adultos. O ponto aqui é outro: é sobre os problemas do dia a dia, aqueles que eles podem e precisam aprender a enfrentar.

Dar crédito é um ato de amor

Tem uma frase que eu repito muito para os meus filhos e que carrego como uma espécie de mantra na minha prática clínica também: “Vai lá, tenta resolver. Não deu certo, aí você me procura.”

Essa frase simples carrega um recado poderoso: eu acredito em você. Você é capaz. E eu estou aqui se precisar, mas primeiro tente.

Dar crédito para as crianças é um ato profundo de amor e respeito. É dizer, com atitudes, que elas têm recursos internos. Que elas são competentes. Que o mundo não é um lugar tão ameaçador que precise de um adulto para filtrar tudo o tempo todo. Isso constrói autoestima de verdade, não aquela autoestima de elogio vazio, mas a que vem da experiência real de ter tentado, errado, tentado de novo e conseguido.

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Como preparar seu filho para o futuro sem abrir mão do seu papel

A vida é feita de problemas. Todos os dias, em todas as idades. Se a gente não ensina as crianças a lidar com isso desde cedo, a conta chega lá na frente, quando os desafios são maiores e a gente não está mais do lado para resolver. Então, como fazer isso na prática?

  • Espere antes de agir: Quando seu filho apresentar um problema, respire fundo antes de sair resolvendo. Pergunte a ele o que ele acha que pode fazer. Ouça com atenção. Isso já é um exercício enorme de autonomia e pensamento crítico. A pergunta “o que você acha que pode fazer?” é mais poderosa do que qualquer solução que você dê pronta.
  • Deixe a frustração acontecer: Frustração não é o fim do mundo, é parte do aprendizado. Uma criança que nunca frustra nunca aprende a regular emoções, a persistir, a buscar alternativas. Obviamente dentro do que é seguro e adequado para a idade, mas deixar que ela experimente o “não deu certo” é essencial para que ela aprenda a lidar com isso ao longo da vida.
  • Seja rede de apoio, não escudo: Existe uma diferença enorme entre ser um porto seguro e ser um escudo. O porto seguro acolhe, ouve, ampara e encoraja a criança a voltar para o mundo. O escudo bloqueia tudo, não deixa nada chegar. Seu filho precisa de você como porto seguro, um lugar para onde ele possa voltar depois de tentar, não um lugar que o impeça de sair.
  • Valide sem resolver: Às vezes a criança não quer solução, quer ser ouvida. Dizer “entendo que foi difícil, o que você sentiu?” antes de qualquer conselho já muda completamente a dinâmica. Ela se sente vista, e ao mesmo tempo você não tira dela a responsabilidade de pensar no que fazer a seguir.
  • Modele a resolução de problemas: Conte para seus filhos sobre situações do seu dia em que você teve um problema e precisou pensar em como resolver. Mostre o processo, não só o resultado. Isso ensina, de forma natural, que problemas fazem parte da vida e que existe um caminho para lidar com eles.

Criança que resolve problema vira adulto que se conhece

Quando a gente permite que as crianças enfrentem suas próprias questões, com suporte mas sem substituição, estamos entregando a elas algo que nenhum presente material consegue dar: a confiança em si mesmas. Essa confiança é o alicerce da saúde mental. É o que vai fazer com que, lá na frente, diante de uma perda, de uma decepção, de um desafio profissional ou afetivo, esse jovem adulto saiba que é capaz de atravessar.

Criar filhos não é protegê-los de tudo. É prepará-los para tudo. E essa diferença, que parece pequena nas palavras, é enorme na prática e nos resultados que vemos ao longo da vida.

Você não precisa ser perfeita nisso. Ninguém é. A gente aprende junto, erra, recalibra e tenta de novo. O importante é ter consciência do impacto das nossas escolhas cotidianas e ir ajustando com amor e intenção.

E você, consegue se lembrar de alguma situação em que deixou seu filho tentar resolver sozinho e ele surpreendeu? Me conta nos comentários, adoro ouvir essas histórias! Com carinho, Mariana 💙

Mariana De Luccia Rivaben

Uma carreira sólida construída através de muito aprendizado com especial atenção a cada um de meus pacientes e alunos. >> Mestra em Distúrbios do Desenvolvimento pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. >> Especialista em Psicologia Hospitalar pela Santa Casa de Misericórdia de São Paulo. >> Especialista em Psicologia Clínica pelo CEP – Centro de Estudos Psicanalíticos. >> Atuação como docente do curso de Psicologia e Coordenadora da Clínica de Psicologia Aplicada no Centro Universitário Unifafibe.

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