Você está criando um filho sem desejo — e talvez nem tenha percebido isso

Imagine a cena: seu filho olha para um brinquedo na vitrine e, antes mesmo de abrir a boca, você já está com o cartão na mão. Parece amor, parece cuidado — e é, de verdade. Mas existe uma linha muito tênue entre proteger e privar. Privar do quê? Da falta. E é exatamente sobre isso que precisamos conversar hoje.

O que a psicanálise tem a dizer sobre a falta

Na teoria psicanalítica, especialmente na leitura lacaniana, a falta não é um problema a ser resolvido — ela é o motor do desejo. Isso mesmo: é porque sentimos falta de algo que nos movemos, que buscamos, que crescemos. Quando eliminamos completamente a falta da vida de uma criança, sem querer, apagamos também o desejo dela de conquistar o mundo.

Não estou falando de deixar uma criança sofrer desnecessariamente ou passar por privações reais. Estou falando daquele movimento automático que muitos pais fazem: antecipar cada necessidade, resolver cada frustração antes que ela apareça, transformar o “eu quero” em “já está aqui” antes mesmo que o pedido seja formulado.

Uma pesquisa publicada no Journal of Child and Family Studies apontou que crianças cujos pais têm dificuldade em tolerar a frustração dos filhos tendem a apresentar menor tolerância ao estresse e dificuldades de autorregulação emocional na adolescência. Ou seja: a ciência confirma o que a psicanálise já dizia há décadas.

Onde não há falta, não há desejo — e isso é mais sério do que parece

Pense comigo: se tudo que seu filho pode imaginar já foi comprado, já foi resolvido, já foi entregue antes mesmo de ser pedido, o que sobra para ele desejar? O que sobra para ele buscar?

O desejo nasce da falta. A motivação nasce do desejo. A conquista nasce da motivação. Quando cortamos esse ciclo no início — na falta — comprometemos toda a cadeia que transforma uma criança em um adulto capaz de lutar pelo que quer.

Não é exagero dizer que estamos, sem perceber, criando adultos que não sabem o que querem — porque nunca precisaram querer nada. Tudo sempre chegou antes. E quando chegarem na vida adulta e o mundo não funcionar assim, a sensação será de um vazio imenso, de uma incapacidade que vai parecer inexplicável, mas tem raízes bem concretas na infância.

Mas espera — isso não significa ser um pai ou mãe negligente

Aqui mora um mal-entendido enorme, e eu preciso ser muito clara: permitir a falta não é o mesmo que ser frio, ausente ou cruel. É exatamente o oposto. É estar presente o suficiente para suportar ver seu filho frustrado, sem correr para consertar tudo imediatamente.

É deixar ele esperar pelo brinquedo que pediu no aniversário. É não comprar o segundo sorvete só porque ele chorou. É deixar ele resolver uma briga com o amigo sem você entrar como mediador profissional antes que qualquer conflito aconteça. É permitir que ele sinta o peso de uma conquista — e a leveza que vem depois.

A avó que dizia “tem tempo para sofrer” estava, à sua maneira, falando de algo muito verdadeiro. A questão não é fazer sofrimento por sofrimento — é não blindar as crianças de toda e qualquer experiência de espera, de esforço, de frustração. Porque essas experiências são construtoras de caráter, de resiliência, de identidade.

📱 Falo muito sobre desenvolvimento infantil e os impactos das nossas escolhas na criação dos filhos no Instagram @mariana.deluccia. Vem me acompanhar por lá e continuar essa conversa tão importante!

Dicas práticas para começar a mudar esse padrão hoje

  • Pratique a pausa antes de resolver: Quando seu filho expressar uma necessidade ou frustração, respire antes de agir. Pergunte a si mesmo: “Ele realmente precisa que eu resolva isso agora, ou ele consegue lidar com isso com um pouco de suporte emocional?” Muitas vezes, a presença acolhedora é suficiente — sem que você precise eliminar o desconforto completamente.
  • Crie espaço para o desejo se formar: Antes de comprar algo que seu filho viu e quer, experimente esperar. Coloque na lista de aniversário, de Natal, de uma conquista escolar. Deixe o desejo crescer. Você vai perceber que, quando a coisa chega depois de uma espera, o valor que ela tem para a criança é completamente diferente — e o prazer da conquista também.
  • Deixe a frustração ter voz: Quando seu filho ficar frustrado, valide o sentimento sem necessariamente resolver o problema. “Eu sei que você está chateado porque não pode agora. Faz sentido ficar assim.” Isso ensina que sentir falta é tolerável, que a frustração passa — e que ele é capaz de atravessá-la.
  • Observe seus próprios gatilhos: Muitos pais antecipam as necessidades dos filhos porque não conseguem tolerar ver a criança sofrendo — e isso tem a ver com a própria história deles. Se você percebe que fica muito ansioso diante da frustração do seu filho, pode ser um bom tema para explorar em terapia. Cuidar de você é cuidar dele também.

Que adulto você está construindo agora?

Cada escolha pequena que fazemos na criação dos nossos filhos está, aos poucos, desenhando o adulto que eles vão se tornar. Um adulto que nunca sentiu falta pode se tornar alguém que não sabe o que quer, que desiste fácil diante dos primeiros obstáculos, que espera que o mundo funcione como os pais funcionaram — entregando tudo antes de ser pedido.

E o mundo não funciona assim. O trabalho não funciona assim. Os relacionamentos não funcionam assim. A vida não funciona assim.

Criar filhos com capacidade de desejar, de esperar, de lutar e de conquistar é um dos maiores presentes que você pode dar. Não é fácil — exige que você suporte a dor de ver seu filho frustrado, que você confie no processo, que você acredite que ele é capaz mais do que você imagina.

Mas é exatamente aí, nesse espaço de falta tolerada, que nasce a força. Que nasce o movimento. Que nasce o desejo de conquistar o mundo.

Você não precisa ser perfeito nesse processo — nenhum pai ou mãe é. Mas começar a perceber esse padrão já é um passo enorme. E você já está aqui, lendo isso, refletindo. Isso já diz muito sobre quem você é como pai ou mãe.

Você consegue identificar algum momento em que antecipou uma necessidade do seu filho antes mesmo que ela aparecesse? Como foi isso para você? Com carinho, Mariana 💙

Mariana De Luccia Rivaben

Uma carreira sólida construída através de muito aprendizado com especial atenção a cada um de meus pacientes e alunos. >> Mestra em Distúrbios do Desenvolvimento pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. >> Especialista em Psicologia Hospitalar pela Santa Casa de Misericórdia de São Paulo. >> Especialista em Psicologia Clínica pelo CEP – Centro de Estudos Psicanalíticos. >> Atuação como docente do curso de Psicologia e Coordenadora da Clínica de Psicologia Aplicada no Centro Universitário Unifafibe.

Leave a Reply