Mãe protege, pai lança: por que os dois jeitos de amar são essenciais para os seus filhos

Você já se pegou segurando a mão do seu filho com força, com aquele frio na barriga só de imaginar ele se machucar? Essa vontade de colocar todo mundo debaixo das suas asas e não deixar o mundo chegar perto é real, bonita e completamente humana. Mas e se eu te dissesse que o jeito do pai amar, tão diferente do seu, é exatamente o que os seus filhos precisam para crescer inteiros?

Aquela cena do sofá que mudou tudo

Deixa eu te contar uma história que aconteceu comigo. Quando meus filhos eram bebezinhos, eu vivia naquela fase de escala móvel, sabe? Cada vez que eles tentavam subir em alguma coisa, eu já estava lá, pronta para interceptar. O medo de se machucar falava mais alto em mim. Um dia, cheguei em casa e encontrei o pai ensinando o nosso filho, ainda pequenininho, a subir no sofá e a descer com segurança. Meu primeiro impulso foi intervir. Mas me segurei. E fiquei observando.

Foi um momento de revelação. Enquanto eu queria evitar a queda a qualquer custo, ele estava ensinando como lidar com o desafio. Os dois amando do mesmo jeito? Não. Os dois amando com a mesma intensidade? Absolutamente sim.

A ciência por trás do que a gente sente na barriga

Esse instinto protetor materno não é fruto da nossa imaginação, ele tem base biológica e psicológica bem documentada. A ocitocina, conhecida como o hormônio do vínculo, é liberada de forma intensa nas mães logo após o parto e durante a amamentação, criando uma resposta neurológica de proteção e cuidado muito acentuada. Mas o que a ciência também nos mostra é que o envolvimento paterno ativo tem impacto direto e mensurável no desenvolvimento infantil.

Um estudo publicado no Journal of Family Psychology apontou que crianças com pais ativamente presentes apresentam maior tolerância à frustração, melhor regulação emocional e mais facilidade para estabelecer vínculos sociais saudáveis fora do ambiente familiar. Ou seja, aquela cena do sofá não era só uma brincadeira. Era neurociência em ação.

Mãe que cria para ela, pai que cria para o mundo

Existe uma frase que eu carrego comigo há muito tempo: a mãe cria os filhos para ela, o pai cria os filhos para o mundo. Quando ouvi isso pela primeira vez, confesso que fiquei um pouco na defensiva. Mas quanto mais eu aprofundei meus estudos em desenvolvimento infantil e psicanálise, mais eu entendi a profundidade dessa ideia.

O amor materno, em sua essência mais primitiva, quer preservar. Quer manter perto, proteger, garantir que nada doa. Já o amor paterno, em sua função simbólica, empurra para fora. Não por falta de cuidado, mas porque a função do pai, dentro da estrutura psíquica da criança, é justamente essa: apresentar o mundo, suas regras, seus limites e suas possibilidades.

Na psicanálise, falamos muito sobre a função paterna como aquela que introduz a criança na realidade social. É o pai que, simbolicamente, diz: você é amado aqui dentro, mas também tem um mundo lá fora esperando por você. E isso, longe de ser cruel, é um dos maiores presentes que uma criança pode receber.

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Quando os dois jeitos de amar se encontram

O grande segredo não está em escolher entre proteger e lançar. Está em entender que os dois movimentos são necessários e complementares. Uma criança que só recebe proteção pode crescer com dificuldade de lidar com a frustração, com o não, com os desafios naturais da vida. Já uma criança que só é empurrada para o mundo sem o amparo do colo pode desenvolver insegurança e ansiedade.

O equilíbrio entre o ninho e o voo é o que forma adultos resilientes, seguros e capazes de se relacionar bem com o mundo. E esse equilíbrio nasce justamente da diferença entre os jeitos de amar da mãe e do pai.

Mas e quando o pai não está presente?

Aqui preciso abrir um parêntese importante e acolhedor. Nem toda família tem essa configuração tradicional, e tudo bem. A função paterna, da qual fala a psicanálise, não é exclusiva do pai biológico. Ela pode ser exercida por um padrasto, um avô, uma tia, a própria mãe em determinados momentos, ou qualquer figura de referência que introduza a criança nas regras do mundo externo. O que importa é que essa função exista na vida da criança de alguma forma.

Se você é mãe solo, saiba que você pode exercer os dois movimentos, com consciência e com apoio. Não precisa ser perfeita. Precisa ser presente e intencional.

Dicas práticas para equilibrar proteção e autonomia no dia a dia

  • Observe antes de intervir: Na próxima vez que seu filho tentar algo desafiador, respire fundo antes de correr para ajudar. Pergunte a si mesma: ele está em perigo real ou eu estou com medo do desconforto dele? Muitas vezes, o que parece perigoso é apenas novo.
  • Valorize o jeito diferente do seu parceiro: Se o pai faz diferente de você, isso não significa que ele está errado. Antes de corrigir, observe o resultado. A criança está segura? Está aprendendo? Então talvez aquele jeito diferente seja exatamente o que ela precisa naquele momento.
  • Crie desafios graduais e seguros: Você pode ser a mãe protetora e ainda assim estimular a autonomia. Ofereça desafios adequados para a idade, deixe ele tentar, erre e tentar de novo. Errar com segurança é aprender com amor.
  • Fale sobre o mundo com seu filho: Apresente a realidade de forma gentil e honesta. O mundo tem lugares maravilhosos e também tem dificuldades. Quanto mais você conversa sobre isso, mais você prepara seu filho para navegar por ele com confiança.
  • Cuide da sua própria ansiedade: Muitas vezes, o que a gente chama de instinto protetor é, na verdade, a nossa própria ansiedade disfarçada de cuidado. Buscar apoio psicológico para entender esses movimentos internos é um dos maiores atos de amor que você pode ter pela sua família.

Amar é também aprender a soltar

Criar filhos é um dos exercícios mais bonitos e mais difíceis de soltura que existe. A gente os recebe tão pequenos, tão dependentes, e vai sendo convidada, a cada fase, a abrir um pouquinho mais as mãos. Não porque deixamos de amar, mas porque amar de verdade é querer que eles voem, mesmo que o coração aperte cada vez que os pés deles saem do chão.

A mãe que protege e o pai que lança não são opostos. São os dois lados de uma mesma moeda chamada amor. E quando esses dois movimentos coexistem com consciência e respeito, o que se forma é uma criança que sabe que tem um ninho para voltar e asas para voar.

E você, consegue se reconhecer nessa dinâmica? Qual parte é mais difícil para você: proteger ou soltar? Com carinho, Mariana 💙

Mariana De Luccia Rivaben

Uma carreira sólida construída através de muito aprendizado com especial atenção a cada um de meus pacientes e alunos. >> Mestra em Distúrbios do Desenvolvimento pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. >> Especialista em Psicologia Hospitalar pela Santa Casa de Misericórdia de São Paulo. >> Especialista em Psicologia Clínica pelo CEP – Centro de Estudos Psicanalíticos. >> Atuação como docente do curso de Psicologia e Coordenadora da Clínica de Psicologia Aplicada no Centro Universitário Unifafibe.

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