Mãe protege, pai lança ao mundo: por que os dois jeitos de amar são essenciais para o desenvolvimento dos filhos

Você já se pegou segurando a mão do seu filho com força, com aquele frio na barriga só de imaginar ele se machucar? Eu também. Essa vontade de colocar os filhos debaixo das nossas asas e nunca mais deixar sair é tão real, tão visceral, que às vezes nos pega de surpresa. Mas e se eu te dissesse que o jeito do pai de amar, aquele que parece descuidado à primeira vista, é exatamente o que os nossos filhos mais precisam para crescer?

O instinto materno que quer proteger tudo e todos

Quando meus filhos eram bebezinhos, eu evitava a qualquer custo deixá-los subir em móveis, escadas, sofás. O coração já disparava só de imaginar uma queda. Um dia cheguei em casa e encontrei o pai ensinando meu filho, ainda pequenininho, a subir e descer do sofá com segurança. Minha reação imediata foi aquele susto característico de mãe. Mas então parei, respirei e percebi algo muito importante: enquanto eu estava evitando o problema, ele estava ensinando a resolver.

Esse instinto protetor materno não é fraqueza, nem exagero. Ele tem uma base biológica e psicológica muito sólida. Estudos em neurociência mostram que o cérebro das mães apresenta ativação intensa nas áreas ligadas à empatia e à antecipação de ameaças, especialmente nos primeiros anos de vida dos filhos. É literalmente o nosso cérebro trabalhando para manter aquela criança viva e segura. Lindo e necessário, mas não suficiente sozinho.

O pai que empurra para o mundo, e por que isso é amor também

A psicanálise há muito tempo nos ensina sobre a função paterna como aquela que introduz a criança na realidade externa, no mundo além da mãe. Donald Winnicott, pediatra e psicanalista britânico, já descrevia que a mãe oferece o holding, o acolhimento, o colo seguro. E o pai, por sua vez, representa o outside world, o mundo lá fora, com suas regras, desafios e possibilidades.

Não é que o pai ame menos. É que ele ama de um jeito diferente, e esse jeito diferente tem uma função essencial no desenvolvimento infantil. Quando o pai ensina o filho a subir no sofá, ele está dizendo, na linguagem do corpo e da ação: você é capaz, eu acredito em você, o mundo não é tão assustador quanto parece.

Uma pesquisa publicada no Journal of Family Psychology apontou que crianças que têm a presença ativa do pai no cotidiano apresentam maior tolerância à frustração, melhor regulação emocional e mais confiança para explorar ambientes novos. Ou seja, o pai que deixa o filho voar está, na verdade, construindo as asas que sustentarão esse voo.

Quando proteção vira aprisionamento sem querer

Aqui vem a parte que pede honestidade, e eu sei que pode apertar um pouco. Quando a proteção materna não encontra o contraponto da função paterna, ela pode, sem nenhuma intenção ruim, transformar o amor em uma gaiola dourada. A criança superprotegida aprende que o mundo é perigoso demais para ser enfrentado. Aprende que ela não é capaz. Aprende a esperar que alguém resolva por ela.

Isso não significa que a mãe está errando. Significa que nenhum estilo de cuidado, sozinho, dá conta de tudo que uma criança precisa. É o encontro dos dois que cria o equilíbrio: o colo que acolhe e o empurrão que liberta.

“📱 Falo muito sobre desenvolvimento infantil, vínculos e parentalidade consciente no Instagram @mariana.deluccia. Se esse assunto ressoa com você, vem me acompanhar por lá e continuar essa conversa!

E quando o pai não está presente? Como lidar com isso

Essa é uma pergunta que muitas mães me fazem, e ela merece atenção e cuidado. A função paterna, na perspectiva psicanalítica, não está necessariamente ligada a uma figura masculina ou ao pai biológico. Ela é uma função simbólica, que pode ser exercida por avós, tios, padrastos, ou até pela própria mãe quando ela consegue, conscientemente, alternar entre o acolhimento e o incentivo à autonomia.

O que importa é que a criança tenha acesso a experiências que a desafiem com segurança, que a ensinem que errar faz parte, que o mundo tem obstáculos mas também tem saídas. Isso pode vir de múltiplas fontes de cuidado.

Dicas práticas para equilibrar proteção e autonomia no dia a dia

  • Observe antes de intervir: Na próxima vez que seu filho tentar algo que te dá frio na barriga, espere alguns segundos antes de correr. Pergunte a si mesma: ele está em perigo real ou apenas em um desconforto que faz parte do aprendizado? Muitas vezes, o que parece perigoso é só novo.
  • Substitua o “não” pelo “como”: Em vez de dizer “não sobe aí”, tente “vamos ver como você pode subir com segurança”. Essa pequena mudança de linguagem transforma um limite em um ensinamento, e mantém a criança no protagonismo da própria experiência.
  • Converse com o seu parceiro sobre os estilos de cuidado: Ao invés de enxergar as diferenças como conflito, tente vê-las como complementaridade. Perguntem um ao outro: o que você acha que nosso filho precisa aprender agora? Essa conversa pode abrir portas incríveis para a parceria parental.
  • Cuide da sua própria ansiedade: Muitas vezes, o que chamamos de instinto protetor carrega também a nossa própria ansiedade não resolvida. Buscar apoio psicológico não é fraqueza, é o maior presente que você pode dar aos seus filhos, porque uma mãe mais inteira cria filhos mais inteiros.
  • Celebre as pequenas conquistas de autonomia: Quando seu filho fizer algo sozinho pela primeira vez, mesmo que de forma imperfeita, comemore. Esse reforço positivo ensina que tentar vale a pena, mesmo quando dá errado.

Os dois amores que formam uma pessoa inteira

A mãe que cria para si não é egoísta. Ela é humana, ela é amor puro em forma de medo de perder. E o pai que cria para o mundo não é indiferente. Ele é confiança em forma de desafio. Quando esses dois amores se encontram, a criança aprende que pode ser amada no colo e também no voo. Que existe segurança para voltar e liberdade para partir.

Criar filhos é exatamente isso: preparar alguém para um dia não precisar mais de você da mesma forma. E há uma beleza enorme nisso, mesmo que doa um pouquinho.

Nenhum de nós vai acertar sempre. Mas quando a gente entende a dança entre proteção e liberdade, entre colo e impulso, entre mãe e pai, a gente começa a criar não apenas filhos saudáveis, mas pessoas que acreditam em si mesmas.

E você, consegue identificar esses dois movimentos na forma como cuida dos seus filhos? Qual deles costuma ser mais natural para você? Com carinho, Mariana 💙

Mariana De Luccia Rivaben

Uma carreira sólida construída através de muito aprendizado com especial atenção a cada um de meus pacientes e alunos. >> Mestra em Distúrbios do Desenvolvimento pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. >> Especialista em Psicologia Hospitalar pela Santa Casa de Misericórdia de São Paulo. >> Especialista em Psicologia Clínica pelo CEP – Centro de Estudos Psicanalíticos. >> Atuação como docente do curso de Psicologia e Coordenadora da Clínica de Psicologia Aplicada no Centro Universitário Unifafibe.

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