Você já parou para pensar se a sua escolha sobre a maternidade é realmente sua? Vivemos numa época em que mulheres são aplaudidas por “conquistar tudo primeiro” — carreira, independência, estabilidade — e só depois “se permitirem” pensar em filhos. Mas e se essa ordem também for uma armadilha? E se o que parece liberdade for, na verdade, mais uma forma de cobrança disfarçada?

A nova régua do sucesso feminino

Durante décadas, a sociedade cobrou das mulheres que fossem mães antes de qualquer coisa. O casamento e os filhos eram o destino natural, o projeto de vida esperado. Hoje, o roteiro mudou — mas a cobrança não desapareceu, ela só trocou de roupa. Agora, muitas mulheres sentem que precisam primeiro provar seu valor no mundo profissional, acumular conquistas, garantir independência financeira, e só então recebem uma espécie de “permissão social” para pensar na maternidade.

Parece progresso, não é? E em muitos aspectos é, sim. Mas existe uma pergunta que a psicologia nos convida a fazer com coragem: essa escolha está vindo de dentro ou está vindo de fora? Porque existe uma diferença enorme entre “eu não quero ser mãe agora porque não me sinto pronta” e “eu ainda não posso ser mãe porque primeiro preciso provar que sou bem-sucedida o suficiente”.

O peso invisível das expectativas sociais

A psicologia social nos mostra, há muito tempo, que nossas escolhas são profundamente moldadas pelo contexto em que vivemos. Um estudo publicado no Journal of Marriage and Family (2022) apontou que mulheres com alta escolaridade relatam pressão significativa para adiar a maternidade em função da carreira, e que essa pressão frequentemente vem de pares, ambientes de trabalho e da própria mídia — não apenas de uma decisão interna genuína.

Isso não significa que adiar a maternidade seja errado. Significa que vale a pena olhar com honestidade para a origem dessa escolha. Quando uma mulher diz “primeiro quero construir minha carreira”, ela pode estar falando de um desejo legítimo e profundo. Mas também pode estar respondendo, sem perceber, a uma narrativa que diz que mulher que tem filho cedo “jogou fora” suas chances de sucesso.

E aí entra algo que a psicanálise chama de escolha sintomática: quando achamos que estamos escolhendo livremente, mas na verdade estamos respondendo a um mandato inconsciente — seja o mandato antigo de “seja mãe”, seja o mandato novo de “seja bem-sucedida primeiro”.

Conquistar tudo antes: liberdade ou nova prisão?

Pensa comigo numa situação bem real. Ana tem 32 anos, é gerente numa empresa, viaja a trabalho, tem apartamento próprio. Quando alguém pergunta sobre filhos, ela responde: “Ainda não, preciso me estabelecer melhor.” Mas quando ela fica sozinha à noite, sente um aperto que não sabe nomear. Não é necessariamente vontade de ser mãe — pode ser o peso de sentir que nunca vai ser “suficientemente estabelecida” para merecer outras escolhas da vida.

Esse aperto tem nome. É o que acontece quando internalizamos tão profundamente as expectativas externas que elas passam a funcionar como voz interna. Não conseguimos mais distinguir o que queremos do que achamos que deveríamos querer.

E o mais delicado de tudo: isso acontece tanto com quem adia a maternidade quanto com quem a antecipa. A questão nunca é o timing em si. A questão é a liberdade real por trás da escolha.

“📱 Falo muito sobre maternidade, identidade feminina e escolhas que vêm de dentro no Instagram @mariana.deluccia. Vem me acompanhar por lá — tem conteúdo novo toda semana e uma comunidade incrível de mulheres que pensam junto.

Como saber se a sua escolha é realmente sua?

Não existe resposta pronta para isso, mas existem perguntas que valem ouro. A psicologia não está aqui para dizer quando você deve ter filhos, se deve ter, ou qual é a ordem certa das coisas. Ela está aqui para te ajudar a ouvir a si mesma com mais clareza. E às vezes, esse exercício de escuta muda tudo.

  • Pergunte-se de onde vem a sua narrativa: Quando você pensa em maternidade e carreira, quais vozes aparecem? São suas? São da sua mãe, da sua chefe, das redes sociais? Identificar a origem de uma crença já é o primeiro passo para entender se ela é sua ou emprestada.
  • Observe o que você sente, não só o que você pensa: O corpo e as emoções guardam informações que a mente racional muitas vezes tenta silenciar. Quando você imagina diferentes cenários para a sua vida, o que aparece? Alívio? Aperto? Alegria? Culpa? Esses sinais emocionais são dados preciosos sobre o que você realmente quer.
  • Questione o conceito de “suficiente”: Se você sente que precisa chegar em algum lugar antes de “merecer” certas escolhas, vale perguntar: quem definiu esse lugar? Existe um ponto de chegada real, ou é uma linha que sempre se move? Mulheres que vivem nessa corrida muitas vezes percebem que o “suficiente” nunca chega — porque ele foi construído de fora para dentro.
  • Busque espaço para falar sobre isso sem julgamento: Seja numa terapia, num grupo de mulheres, numa conversa honesta com uma amiga de confiança. Colocar essas questões em palavras ajuda a organizar o que está embaralhado dentro da gente. Não subestime o poder de ser ouvida.

A verdadeira conquista que ninguém te conta

Sabe qual é a conquista que eu mais admiro numa mulher? Não é ter filhos cedo. Não é adiar a maternidade. Não é ter a carreira mais brilhante nem a casa mais organizada. É a capacidade de olhar para dentro e distinguir o que é seu do que é dos outros. É poder fazer escolhas — quaisquer que sejam — sem precisar se justificar para uma régua que não foi você quem criou.

Adiar a maternidade pode ser um ato de profundo autoconhecimento e cuidado. Assim como escolher ser mãe cedo pode ser. Assim como não querer ser mãe nunca pode ser. O que muda tudo é a origem dessa escolha: ela nasce de você, ou nasce do medo de decepcionar uma expectativa que nem é sua?

Talvez a pergunta mais honesta que uma mulher possa se fazer não seja “quando devo ser mãe?” mas sim: “O que eu realmente quero para a minha vida, quando ninguém está olhando?”

Essa resposta — seja ela qual for — merece ser respeitada. Por você, antes de qualquer pessoa.

E você, como foi com você? Você já parou para pensar se as suas escolhas sobre maternidade e carreira vieram de dentro ou de fora? Me conta nos comentários — prometo que leio tudo com muito carinho.

Com carinho, Mariana 💙

Mariana De Luccia Rivaben

Uma carreira sólida construída através de muito aprendizado com especial atenção a cada um de meus pacientes e alunos. >> Mestra em Distúrbios do Desenvolvimento pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. >> Especialista em Psicologia Hospitalar pela Santa Casa de Misericórdia de São Paulo. >> Especialista em Psicologia Clínica pelo CEP – Centro de Estudos Psicanalíticos. >> Atuação como docente do curso de Psicologia e Coordenadora da Clínica de Psicologia Aplicada no Centro Universitário Unifafibe.

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