Você já elogiou alguém hoje? O poder transformador de reconhecer o outro

Hoje eu recebi um elogio e ele simplesmente me ganhou o dia. Sabe aquela sensação de leveza que toma conta do peito, aquele sorriso que aparece sem pedir licença? Pois é. E isso me fez pensar: por que a gente elogia tão pouco, se fazer isso é tão gostoso quanto receber?

O olhar crítico que carregamos sem perceber

Seja honesta comigo: quando você olha para alguém, qual é o seu primeiro movimento interno? Muitas vezes, quase sem querer, a gente já nota o que está errado, o que poderia ser diferente, o que incomoda. Esse olhar crítico não é uma falha de caráter, é uma herança evolutiva. Nosso cérebro foi treinado ao longo de milênios para identificar ameaças e imperfeições como forma de sobrevivência. O problema é que, no mundo de hoje, esse mecanismo antigo acaba nos afastando das pessoas em vez de nos proteger.

A neurociência já comprovou que o cérebro humano tem o que os pesquisadores chamam de viés de negatividade. Segundo estudos publicados no campo da psicologia social, estímulos negativos têm um impacto até cinco vezes maior no nosso processamento emocional do que estímulos positivos de mesma intensidade. Ou seja, uma crítica pesa muito mais do que um elogio, e por isso precisamos ser ainda mais intencionais quando escolhemos reconhecer o outro.

Mas aqui está a boa notícia: esse padrão pode ser mudado. E elogiar é uma das formas mais simples e poderosas de começar essa mudança.

O que acontece no cérebro de quem recebe um elogio

Quando alguém nos elogia de forma genuína, o nosso cérebro libera dopamina, o neurotransmissor associado ao prazer e à motivação. Não é exagero dizer que um elogio sincero literalmente nos faz bem do ponto de vista biológico. Uma pesquisa da Universidade de Osaka, publicada no jornal PLOS ONE, demonstrou que receber elogios ativa as mesmas regiões cerebrais ativadas por recompensas materiais, como ganhar dinheiro. Isso explica aquela sensação de que o dia ficou mais bonito depois que alguém nos disse algo gentil.

Mas não para por aí. O elogio também fortalece vínculos. Ele diz ao outro: eu te vejo, eu te reconheço, você importa. E essa mensagem, tão simples quanto poderosa, é exatamente o que muitas pessoas mais precisam ouvir, especialmente em tempos onde a solidão e o isolamento emocional são questões de saúde pública.

E quem elogia, o que ganha?

Aqui está o ponto que mais me encanta nessa conversa. Elogiar o outro não é só um gesto altruísta, é também um presente que você se dá. Quando treinamos o olhar para enxergar o que há de bonito no outro, estamos, ao mesmo tempo, cultivando dentro de nós uma postura mais generosa, mais presente e mais conectada com a vida.

Do ponto de vista da psicanálise, o modo como olhamos para o outro diz muito sobre como nos relacionamos com nós mesmos. Um olhar que só critica o de fora muitas vezes está refletindo uma autocrítica interna intensa. Quando começamos a praticar a gentileza com o outro, abrimos também um caminho para sermos mais gentis conosco mesmas.

Além disso, há estudos que mostram que pessoas que expressam gratidão e reconhecimento com frequência têm níveis mais altos de bem-estar subjetivo e menor incidência de sintomas depressivos. Elogiar, portanto, é também um ato de autocuidado.

“📱 Falo muito sobre conexões humanas, vínculos e saúde emocional no Instagram @mariana.deluccia. Vem me acompanhar por lá e continuar essa conversa!

Por que é tão difícil elogiar?

Se elogiar faz tão bem para os dois lados, por que a gente faz isso tão pouco? Algumas razões comuns que aparecem no consultório e na vida:

  • Medo de parecer bajulador: existe uma crença cultural de que elogiar demais é falta de autenticidade. Mas um elogio verdadeiro nunca é demais.
  • Competição velada: em ambientes muito competitivos, reconhecer o outro pode parecer uma ameaça ao próprio valor. É um equívoco, mas é real.
  • Distração do cotidiano: a correria do dia a dia nos deixa no piloto automático, e aí o elogio que estava na ponta da língua vai embora sem ser dito.
  • Dificuldade de expressão emocional: muitas pessoas simplesmente não foram criadas em ambientes onde elogios eram frequentes, então não aprenderam a dar e receber reconhecimento com naturalidade.

Reconhecer esses bloqueios é o primeiro passo para superá-los.

Como cultivar o hábito de elogiar de verdade

A boa notícia é que elogiar é uma habilidade que pode ser desenvolvida, como qualquer outra. Não precisa ser perfeito nem elaborado. Precisa ser verdadeiro. Aqui vão algumas formas práticas de começar hoje:

  • Seja específica: em vez de dizer “você é incrível”, experimente “eu admiro muito a forma como você ouviu a fulana hoje, foi muito cuidadoso da sua parte.” Elogios específicos chegam mais fundo porque mostram que você realmente prestou atenção.
  • Não guarde para depois: se você pensou algo bonito sobre alguém, diga. O momento certo é agora. Elogios guardados nunca chegam ao destino.
  • Elogie o processo, não só o resultado: reconhecer o esforço, a coragem, a dedicação de alguém é ainda mais poderoso do que elogiar o produto final. Isso vale especialmente com crianças, mas funciona para todo mundo.
  • Comece pelas pessoas mais próximas: muitas vezes a gente elogia mais estranhos do que as pessoas que ama. Que tal hoje dizer algo bonito para alguém da sua família ou para uma amiga querida?
  • Pratique o elogio interno: antes de elogiar o outro, experimente se perguntar: o que eu admiro nessa pessoa? Esse exercício treina o olhar e torna o elogio mais genuíno.

Ver o que o outro tem de bonito é também um exercício de amor

Existe uma frase que gosto muito e que cabe perfeitamente aqui: as pessoas florescem onde são regadas. Um elogio sincero é exatamente isso, uma gotinha de água no jardim do outro. E jardins regados crescem, florescem e, de alguma forma, embelezam tudo ao redor.

Vivemos em uma cultura que valoriza demais a crítica e subestima o reconhecimento. Mas a psicologia nos mostra, com dados e com histórias reais de consultório, que o reconhecimento é uma necessidade humana fundamental. Ser visto, ser notado, ser valorizado não é frescura, é saúde.

Então, antes de fechar essa página, que tal pensar em uma pessoa que merece um elogio seu hoje? Pode ser uma mensagem de texto, uma palavrinha no corredor, um comentário numa foto. Pequeno por fora, enorme por dentro.

Você tem esse poder. E ele não custa nada.

Você costuma elogiar as pessoas ao seu redor ou percebe que esse hábito é difícil para você? Me conta nos comentários, adoro saber como essa conversa ressoa na sua vida. Com carinho, Mariana 💙

Mariana De Luccia Rivaben

Uma carreira sólida construída através de muito aprendizado com especial atenção a cada um de meus pacientes e alunos. >> Mestra em Distúrbios do Desenvolvimento pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. >> Especialista em Psicologia Hospitalar pela Santa Casa de Misericórdia de São Paulo. >> Especialista em Psicologia Clínica pelo CEP – Centro de Estudos Psicanalíticos. >> Atuação como docente do curso de Psicologia e Coordenadora da Clínica de Psicologia Aplicada no Centro Universitário Unifafibe.

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