Quando a família não aceita a doença: por que cada um reage de um jeito diferente?
Você já viveu aquela cena em que alguém da família sabe que o parente está doente, mas age como se nada tivesse acontecido? Como se ignorar fosse uma forma de fazer a doença desaparecer? Essa é uma das situações mais delicadas e dolorosas que uma família pode enfrentar, e ela é muito mais comum do que parece. Hoje quero conversar com você sobre isso com toda a honestidade e carinho que esse assunto merece.
A história da minha avó e a irmã com Alzheimer
Eu me lembro bem de uma situação que marcou muito a minha vida. A minha avó tinha uma irmã que foi diagnosticada com Alzheimer. Todo mundo sabia do diagnóstico, incluindo ela. Mas a minha avó simplesmente não conseguia agir de acordo com essa realidade. Ela olhava para a irmã e dizia: “Você sabe sim quem é. Você sabe sim o que aconteceu.” Como se a força das palavras pudesse reverter o que a doença já havia comprometido no cérebro daquela mulher que ela tanto amava.
Não era crueldade. Não era falta de inteligência. Era dor. Era uma dor tão grande que a mente dela encontrou um jeito próprio de se proteger. Demorou um tempo até que ela conseguisse, por dentro, elaborar aquela perda e começar a lidar com a irmã de um jeito mais compatível com a realidade da doença. E esse processo, minha amiga, tem um nome dentro da psicologia.
O que acontece na mente de quem “não aceita” a doença do outro?
Do ponto de vista psicanalítico, o que a minha avó vivia é chamado de negação, um dos mecanismos de defesa descritos por Sigmund Freud e amplamente estudados até hoje. A negação funciona como uma espécie de escudo psíquico: diante de uma realidade insuportável, a mente age como se aquilo não fosse verdade, mesmo quando todas as evidências apontam para o contrário.
E atenção: isso não é fraqueza. É uma resposta automática e inconsciente do psiquismo tentando se proteger de uma dor que ainda não tem espaço para ser processada. Ninguém escolhe negar. Isso acontece antes mesmo de a pessoa perceber.
Um estudo publicado no Journal of Family Psychology mostrou que familiares de pacientes com doenças neurodegenerativas, como o Alzheimer, apresentam níveis elevados de sofrimento emocional e frequentemente recorrem a estratégias de evitação como forma de lidar com o luto antecipatório, ou seja, o luto que começa antes mesmo da morte, pela perda progressiva da pessoa que se conhecia.
Cada um chora do seu jeito, e tudo bem
Quando uma doença grave chega na família, raramente todos reagem da mesma forma. Tem quem chore muito. Tem quem pesquise tudo sobre a doença e vire um especialista no assunto. Tem quem mergulhe nas tarefas práticas, nos remédios, nas consultas. E tem quem, como a minha avó, simplesmente não consiga olhar de frente para aquilo.
Essas reações diferentes podem gerar muita tensão dentro da família. Quem já elaborou mais pode se sentir sozinho ou incompreendido por quem ainda está na negação. Quem está na negação pode ser visto como insensível ou difícil. E aí, além de lidar com a doença do familiar, a família ainda precisa lidar com os conflitos internos que surgem dessas diferenças.
É importante entender que não existe uma forma certa de reagir. Existe o tempo de cada um. E esse tempo precisa ser respeitado, desde que não cause danos ao cuidado da pessoa doente.
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Quando a negação começa a prejudicar
Existe uma diferença importante entre a negação como fase de elaboração e a negação que se torna um obstáculo permanente ao cuidado. Quando um familiar continua agindo como se a doença não existisse mesmo após muito tempo, isso pode atrasar diagnósticos, comprometer tratamentos e até colocar o paciente em risco.
No caso do Alzheimer, por exemplo, cobrar a pessoa doente de que ela “sabe sim” pode gerar angústia, confusão e até agitação no paciente, que não tem mais os recursos cognitivos para responder ao que está sendo exigido. Por isso, quando a negação persiste, buscar apoio profissional, seja para o familiar que está negando, seja para o grupo familiar como um todo, é um passo fundamental.
Dicas práticas para lidar com esse momento na família
- Valide os sentimentos sem validar comportamentos prejudiciais: Dizer para um familiar “eu entendo que é muito difícil aceitar isso” é diferente de concordar com atitudes que prejudicam o cuidado do doente. Você pode acolher a dor do outro sem reforçar a negação.
- Busque informação e compartilhe com leveza: Muitas vezes, a negação diminui quando a pessoa começa a entender melhor a doença. Trazer materiais acessíveis, convidar para uma consulta com o médico ou sugerir grupos de apoio para familiares pode abrir portas sem gerar confronto.
- Cuide de você também: Ser o membro da família que “já aceitou” e precisa lidar com quem ainda não aceitou é exaustivo. Não negligencie o seu próprio processo emocional. Terapia, grupos de apoio e espaços de escuta são para você também.
- Não force o tempo do outro, mas estabeleça limites: Cada pessoa tem seu ritmo de elaboração, mas se a negação de alguém estiver comprometendo o tratamento ou o bem-estar do familiar doente, é necessário uma conversa honesta, preferencialmente com suporte de um profissional de saúde.
- Considere a terapia familiar: Quando a doença impacta a dinâmica de toda a família, um espaço terapêutico coletivo pode ser transformador. Ele permite que cada um fale do seu lugar, seja escutado e, juntos, encontrem uma forma mais saudável de caminhar.
A elaboração chega, mas precisa de espaço
A minha avó, com o tempo, foi elaborando. Foi entendendo, dentro dela, que a irmã estava doente. Que aquela mulher que ela conheceu a vida toda estava sendo levada aos poucos pelo Alzheimer. E quando ela conseguiu acessar essa dor, ela também conseguiu mudar a forma como se relacionava com a irmã. Com mais gentileza, com mais presença, com menos cobrança.
Esse movimento interno não acontece no nosso tempo. Acontece no tempo da psique de cada um. E o nosso papel, como família, como amigos, como profissionais de saúde, é criar condições para que esse processo aconteça com o mínimo de sofrimento possível.
Se você está passando por isso agora, seja como quem já aceitou e precisa lidar com quem não aceitou, seja como quem ainda está no meio do processo de elaboração, saiba que você não está sozinha. Essa é uma das experiências mais humanas e mais difíceis que existem. E falar sobre ela já é um passo enorme.
Alguém da sua família já reagiu assim diante de uma doença? Como foi esse processo para vocês? Me conta aqui nos comentários, eu adoraria ouvir a sua história. Com carinho, Mariana 💙







