Antes de uma criança explodir, existem sinais: o que os adultos precisam parar de ignorar

Uma notícia me tocou fundo esta semana. Em Ribeirão Preto, um menino de 13 anos foi esfaqueado por um colega dentro da escola. O adolescente apreendido disse à polícia que sofria bullying. Duas famílias destruídas. Duas infâncias interrompidas. E uma pergunta que não sai da minha cabeça: o que nós, adultos, deixamos de enxergar antes que isso acontecesse?

Quando a violência choca, mas os sinais vinham antes

É muito humano, diante de uma tragédia assim, querer encontrar um culpado. A escola falhou? Os pais falharam? A sociedade? E a resposta honesta é: provavelmente todos nós, de alguma forma. Não porque somos maus, mas porque aprendemos a normalizar o que não deveria ser normal.

Antes de uma criança ou adolescente chegar a um ponto de explosão, seja pela violência que pratica ou pela dor que carrega em silêncio, quase sempre existem sinais. Sinais que aparecem em casa, na escola, no corpo, no comportamento. E que, muitas vezes, passam despercebidos porque a vida adulta é corrida, porque “adolescente é assim mesmo”, porque “briga de criança é assim”.

Não é assim. E precisamos falar sobre isso com coragem.

O que o bullying faz por dentro: mais do que “brincadeira”

Bullying não é brincadeira. É violência sistemática, repetida, com desequilíbrio de poder. E os dados são assustadores: segundo o relatório do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF, 2021), cerca de 150 milhões de crianças e adolescentes no mundo relatam sofrer bullying entre colegas. No Brasil, pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostrou que mais de 28% dos estudantes brasileiros entre 13 e 17 anos já sofreram bullying na escola.

Quando uma criança é humilhada repetidamente, algo acontece por dentro que vai muito além da tristeza momentânea. O sistema nervoso dela aprende que o mundo é perigoso, que ela não é segura, que ninguém vai protegê-la. E aí duas coisas podem acontecer: ela implode, se fecha, adoece. Ou ela explode.

Nenhuma das duas é frescura. As duas são pedidos de socorro que não foram ouvidos a tempo.

Os sinais que a gente aprende a ignorar

Vou te contar algo que vejo muito no consultório e também nos contextos hospitalares onde atuo: crianças e adolescentes raramente chegam até nós dizendo “eu estou sofrendo”. Eles mostram. E mostram de formas que a gente precisa aprender a ler.

Alguns sinais de alerta que merecem atenção imediata:

  • Não quer mais ir para a escola: dores de barriga, dores de cabeça, choro antes de sair de casa. O corpo fala o que a boca ainda não consegue dizer.
  • Mudança brusca de comportamento: uma criança que era comunicativa e virou fechada, ou que era tranquila e ficou agressiva. Mudança de comportamento sem motivo aparente é sempre um sinal.
  • Isolamento social: parou de ver os amigos, largou atividades que amava, fica muito tempo sozinha no quarto.
  • Alterações no sono e na alimentação: pesadelos frequentes, insônia, comer muito mais ou muito menos do que o habitual.
  • Falas que minimizam a própria dor: “não é nada”, “eu tô bem”, “para de exagerar” dito pela própria criança sobre si mesma. Ela já aprendeu que não adianta pedir ajuda.
  • Agressividade repentina em casa: muitas vezes, a criança que sofre violência fora descarrega em casa, com irmãos, animais ou objetos.

Nenhum desses sinais isolados significa que algo grave vai acontecer. Mas todos eles merecem que o adulto pare, olhe nos olhos e pergunte: como você está de verdade?

“📱 Falo muito sobre saúde emocional infantil, sinais de alerta e como criar filhos emocionalmente saudáveis no Instagram @mariana.deluccia. Me segue lá e vem fazer parte dessa conversa tão necessária.

A responsabilidade que não pode ficar só na escola

A escola tem um papel fundamental, sim. Ela precisa ter protocolos claros, professores capacitados para identificar situações de violência, canais seguros para que crianças possam pedir ajuda sem medo de retaliação. Isso é inegociável.

Mas a família é o primeiro lugar onde uma criança aprende o que é respeito, o que é limite, o que é empatia. E também é o primeiro lugar onde ela deveria se sentir segura o suficiente para dizer: “Mãe, eu estou sofrendo. Pai, eu preciso de ajuda.”

Quando essa ponte não existe em casa, a criança carrega tudo sozinha. E criança não foi feita para carregar peso de adulto sozinha.

O que nós, adultos, podemos fazer agora

Não precisa ser psicólogo para fazer a diferença. Precisa ser presente. Aqui vão algumas atitudes concretas que você pode começar hoje:

  • Crie rituais de conversa sem julgamento: jantar sem celular, perguntas que vão além do “como foi a escola hoje”. Tente: “O que foi difícil hoje?” ou “Teve alguma coisa que te chateou?” Perguntas abertas criam espaço para respostas honestas.
  • Ensine sobre emoções desde cedo: criança que aprende a nomear o que sente tem mais ferramentas para pedir ajuda e para não explodir. Fale sobre raiva, tristeza, vergonha em casa, sem tabu.
  • Leve a sério o que parece pequeno: quando seu filho conta que um colega foi grosseiro, não minimize com “deixa pra lá”. Pergunte mais. Ouça mais. O que parece pequeno para o adulto pode ser enorme para a criança.
  • Observe o comportamento, não só as palavras: crianças comunicam muito mais pelo comportamento do que pelo que dizem. Esteja atenta às mudanças, mesmo que sutis.
  • Busque ajuda profissional sem vergonha: psicólogo não é só para quando a situação já explodiu. É prevenção, é cuidado, é saúde. Levar seu filho ao psicólogo é um ato de amor e de responsabilidade.

Uma reflexão para fechar: o que queremos ensinar?

Toda vez que um adulto ignora um sinal de sofrimento de uma criança, ela aprende que sua dor não importa. Toda vez que normalizamos a crueldade entre crianças como “coisa de idade”, estamos ensinando que violência é aceitável. E toda vez que colocamos a responsabilidade só na escola, esquecemos que a família é onde tudo começa.

Não podemos mudar o que aconteceu em Ribeirão Preto. Mas podemos mudar o que acontece dentro das nossas casas, nas nossas conversas de jantar, na forma como olhamos para os nossos filhos e perguntamos, de verdade, como eles estão.

Antes de uma criança explodir, existem sinais. E nós, adultos, precisamos aprender a enxergá-los antes que seja tarde demais.

Você já parou para perguntar ao seu filho como ele está de verdade, além do “foi bem na escola”? Conta pra mim nos comentários. Com carinho, Mariana 💙

Mariana De Luccia Rivaben

Uma carreira sólida construída através de muito aprendizado com especial atenção a cada um de meus pacientes e alunos. >> Mestra em Distúrbios do Desenvolvimento pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. >> Especialista em Psicologia Hospitalar pela Santa Casa de Misericórdia de São Paulo. >> Especialista em Psicologia Clínica pelo CEP – Centro de Estudos Psicanalíticos. >> Atuação como docente do curso de Psicologia e Coordenadora da Clínica de Psicologia Aplicada no Centro Universitário Unifafibe.

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