Você já sentiu o coração disparar do nada, a respiração encurtar, aquela sensação assustadora de que algo muito ruim está prestes a acontecer? Se sim, você sabe exatamente do que estou falando. E se isso já aconteceu com você mais de uma vez, talvez também conheça o que vem depois da crise: o medo da próxima.

O Pânico Não É Só Aquele Momento de Crise

A maioria das pessoas acha que o transtorno do pânico é aquela crise intensa, aquele episódio assustador que parece um ataque cardíaco e passa em minutos. Mas existe algo que poucos falam: o verdadeiro impacto do pânico não está só na crise em si. Está no que acontece depois.

Primeiro você sente o coração acelerar. Depois vem o pensamento: E se eu passar mal de novo? E se eu perder o controle? E se acontecer num lugar de onde eu não consigo sair? E aí, quase sem perceber, você começa a reorganizar a sua vida inteira em torno desse medo. Evita o shopping, a viagem, a reunião de trabalho. Talvez até sair de casa.

Isso tem um nome na psicologia: é a ansiedade antecipatória e o comportamento de esquiva. E juntos, eles podem ser mais limitantes do que a própria crise de pânico.

Por Que o Cérebro Entra Nesse Ciclo?

Para entender o que acontece, preciso te contar um pouquinho sobre como o nosso cérebro funciona. Quando vivemos uma crise de pânico, o nosso sistema de alarme interno, a famosa resposta de luta ou fuga, é ativado de forma intensa. O corpo interpreta aquela situação como um perigo real e registra tudo: o lugar, as sensações, o contexto.

Aí, na próxima vez que você se aproxima de um lugar parecido, ou sente uma sensação similar no corpo, o cérebro dispara o alarme antes mesmo do perigo existir. É uma tentativa de te proteger. O problema é que esse sistema começa a dar falsos alertas com uma frequência cada vez maior.

E quando você evita o lugar ou a situação, o alívio que sente no momento confirma para o cérebro que a fuga funcionou. Isso reforça o ciclo: evitei, me senti melhor, então preciso continuar evitando. Parece lógico, mas é exatamente o que alimenta o transtorno.

Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), os transtornos de ansiedade, incluindo o transtorno do pânico, afetam cerca de 264 milhões de pessoas no mundo, sendo uma das condições de saúde mental mais prevalentes globalmente. No Brasil, estudos publicados pelo Instituto de Psiquiatria da USP indicam que o país tem uma das maiores taxas de ansiedade do mundo, com impacto direto na qualidade de vida e na capacidade funcional das pessoas.

A Esquiva: Quando a Solução Vira Parte do Problema

Eu atendo muitas pessoas que chegam ao consultório dizendo que estão bem, que aprenderam a se controlar. Mas quando a gente começa a conversar, percebo que esse controle tem um custo altíssimo: elas pararam de viver.

Não vão mais a festas. Recusam promoções no trabalho porque envolvem viagens. Deixam de ver amigos. Escolhem relacionamentos, empregos e rotinas baseadas em uma única pergunta: isso vai me dar pânico?

Quando o pânico começa a tomar decisões por você, ele já não é só um sintoma. Ele virou o roteirista da sua vida.

E a questão que eu quero te fazer hoje é: você está vivendo a vida que quer, ou está vivendo a vida que o pânico permite?

“📱 Falo muito sobre ansiedade, pânico e saúde emocional no Instagram @mariana.deluccia. Se esse conteúdo fez sentido pra você, me segue por lá e vem fazer parte dessa conversa.

Coragem Não É Não Sentir Medo

Preciso desfazer um mito que faz muito mal: a ideia de que pessoas corajosas não sentem medo. Isso não é verdade. Coragem é sentir o medo e escolher agir mesmo assim. É não deixar que o medo tome todas as decisões por você.

Na psicologia, especialmente dentro das abordagens que trabalham com ansiedade, aprendemos que a exposição gradual e segura às situações temidas é um dos caminhos mais eficazes para quebrar o ciclo do pânico. Não se trata de se jogar de cabeça no que te apavora. Trata-se de, com apoio e preparo, ir reconquistando os espaços que o medo tomou.

E isso muda tudo. Porque quando você aprende que consegue tolerar o desconforto, que a crise passa, que você não vai perder o controle, o sistema de alarme começa a se recalibrar. O cérebro aprende que pode confiar em você novamente.

O Que Você Pode Começar a Fazer Hoje

  • Observe sem julgar: Quando sentir os primeiros sinais de ansiedade, tente nomeá-los sem catastrofizar. Em vez de pensar “estou passando mal”, experimente “estou sentindo meu coração acelerar, é desconfortável, mas é uma resposta do meu corpo e vai passar”. Essa simples mudança de perspectiva já reduz a intensidade da reação.
  • Não alimente a esquiva: Cada vez que você evita uma situação por causa do pânico, o medo ganha força. Isso não significa que você deve se expor de forma abrupta, mas significa que vale a pena, com cuidado e no seu ritmo, ir desafiando pequenas evitações do cotidiano. Comece pelo menor passo possível.
  • Pratique regulação do sistema nervoso: Técnicas de respiração diafragmática, como inspirar por 4 tempos, segurar por 4 e expirar por 6, ativam o sistema nervoso parassimpático e ajudam o corpo a sair do estado de alerta. Treinar isso no dia a dia, e não só durante as crises, faz uma diferença real.
  • Busque apoio profissional: Se as crises estão limitando a sua vida, isso é sinal de que você merece e precisa de ajuda especializada. Psicoterapia, especialmente abordagens como a Terapia Cognitivo-Comportamental e o trabalho analítico, são recursos comprovados no tratamento do transtorno do pânico. Você não precisa dar conta disso sozinha.

Você Não Precisa Entregar o Volante ao Pânico

Se tem uma coisa que eu aprendi tanto nos anos de estudo quanto no consultório, é que o sofrimento humano raramente é falta de força de vontade. Na maioria das vezes, é falta de ferramentas. Falta de alguém que explique o que está acontecendo no seu corpo e na sua mente sem te fazer sentir fraca ou exagerada.

O pânico é real. As sensações são reais. O medo é real. Mas a vida que você quer viver também é real, e ela está esperando por você do outro lado desse ciclo.

Você pode aprender a reconhecer os sinais, a responder diferente, a não deixar que o medo seja o único critério nas suas escolhas. Isso não acontece da noite para o dia, mas acontece. E com apoio, acontece muito mais rápido e com muito mais leveza.

Porque coragem, minha amiga, não é nunca sentir medo. É não deixar que ele dirija enquanto você fica no banco de trás.

Você já percebeu o pânico ou a ansiedade tomando decisões por você? Me conta aqui nos comentários, quero muito ouvir a sua história. Com carinho, Mariana 💙

Mariana De Luccia Rivaben

Uma carreira sólida construída através de muito aprendizado com especial atenção a cada um de meus pacientes e alunos. >> Mestra em Distúrbios do Desenvolvimento pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. >> Especialista em Psicologia Hospitalar pela Santa Casa de Misericórdia de São Paulo. >> Especialista em Psicologia Clínica pelo CEP – Centro de Estudos Psicanalíticos. >> Atuação como docente do curso de Psicologia e Coordenadora da Clínica de Psicologia Aplicada no Centro Universitário Unifafibe.

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