Você já ouviu alguém dizer “ansiedade é frescura” ou “é só respirar fundo que passa”? Infelizmente, essas frases são mais comuns do que gostaríamos, e refletem alguns dos maiores mitos sobre ansiedade que circulam por aí. Como psicóloga, vejo diariamente como essas crenças equivocadas podem atrapalhar – e muito – o processo de cura e autocompreensão.
Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (2022), o Brasil é o país com maior prevalência de transtornos de ansiedade no mundo, afetando 9,3% da população. Mesmo assim, o assunto ainda é cercado de preconceitos e informações incorretas que precisamos desmistificar juntas.
Hoje vamos conversar sobre cinco mitos que podem estar sabotando sua jornada de recuperação, e mais importante: vou te mostrar a realidade por trás de cada um deles, com aquele olhar científico mas humano que você já conhece.
Mito 1: “ansiedade é só nervosismo, todo mundo tem”
Esse é provavelmente o mito mais prejudicial que existe. Sim, todo mundo sente ansiedade em determinadas situações – é uma resposta natural do nosso organismo. Mas existe uma diferença gigante entre a ansiedade adaptativa (aquela que nos prepara para uma apresentação importante) e os transtornos de ansiedade.
Quando a ansiedade se torna patológica, ela interfere significativamente na sua vida cotidiana. Não estamos falando de “um friozinho na barriga”, mas sim de sintomas físicos intensos como taquicardia, sudorese excessiva, tremores, e sintomas emocionais como medo desproporcional e evitação de situações sociais.
A diferença está na intensidade, frequência e impacto funcional. Se você não consegue sair de casa, evita elevadores há meses, ou sente que seu coração vai sair pela boca em situações cotidianas, não é “só nervosismo”.
Mito 2: “Quem tem ansiedade é fraco mentalmente”
Esse mito me deixa particularmente indignada porque culpabiliza quem já está sofrendo. A ansiedade patológica tem bases neurobiológicas comprovadas. Estudos de neuroimagem mostram alterações no funcionamento de áreas como a amígdala e o córtex pré-frontal em pessoas com transtornos de ansiedade.
Além disso, fatores genéticos, experiências traumáticas, desequilíbrios neuroquímicos e até mesmo aspectos culturais e sociais contribuem para o desenvolvimento desses quadros. Não tem nada a ver com “força de vontade” ou “fraqueza de caráter”.
Na verdade, muitas pessoas que convivem com ansiedade desenvolvem uma força e resiliência extraordinárias. Imagina enfrentar seus medos todos os dias e ainda assim continuar tocando a vida? Isso é coragem, não fraqueza.
Mito 3: “Medicação para ansiedade causa dependência e muda a personalidade”
Esse mito afasta muitas pessoas de um tratamento que poderia ser transformador. Vamos aos fatos: os medicamentos mais utilizados para ansiedade (como os inibidores seletivos de recaptação de serotonina) não causam dependência química como drogas ou álcool.
Quanto à personalidade, o que vejo na prática é exatamente o oposto. Quando a ansiedade está controlada, a pessoa consegue ser mais ela mesma. É como se tirassem um filtro que distorcia sua forma de ver e reagir ao mundo.
Claro que qualquer medicação deve ser prescrita e acompanhada por um psiquiatra competente. E importante lembrar que medicação não é a única opção – a psicoterapia, especialmente a terapia cognitivo-comportamental, tem eficácia comprovada no tratamento dos transtornos de ansiedade.
Mito 4: “Ansiedade se cura evitando situações que causam medo”
Ah, se fosse tão simples assim! Na verdade, a evitação é um dos principais fatores que mantêm e intensificam os transtornos de ansiedade. Quando evitamos sistematicamente aquilo que nos causa medo, nosso cérebro interpreta isso como confirmação de que realmente existe um perigo.
É como se você dissesse para seu sistema nervoso: “Viu? Eu tinha razão em ter medo daquilo!” E aí, da próxima vez, a ansiedade vem ainda mais forte.
O caminho da recuperação passa justamente pelo oposto: pela exposição gradual e controlada às situações temidas. É claro que isso precisa ser feito com acompanhamento profissional e respeitando seus limites, mas fugir não é a solução.
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Mito 5: “Se você consegue trabalhar e estudar, sua ansiedade não é tão grave”
Esse mito é especialmente cruel porque desconsidera completamente o sofrimento interno da pessoa. Muitas pessoas com transtornos de ansiedade desenvolvem estratégias de enfrentamento que permitem manter suas obrigações, mas isso não significa que não estejam sofrendo intensamente.
É o que chamamos de “funcionamento mascarado”. Por fora, tudo parece normal, mas por dentro existe uma batalha constante contra pensamentos catastróficos, sintomas físicos e um cansaço emocional devastador.
Além disso, esse “funcionamento” muitas vezes vem com um custo altíssimo: isolamento social, relacionamentos prejudicados, qualidade de vida comprometida e, frequentemente, outros problemas como depressão e transtornos do sono.
A Realidade Sobre Ansiedade: O Que Realmente Importa
Agora que desmistificamos essas crenças prejudiciais, vamos falar sobre o que realmente importa: ansiedade é uma condição de saúde mental legítima, tratável e que merece ser levada a sério.
O tratamento adequado pode incluir psicoterapia, medicação, mudanças no estilo de vida e técnicas de manejo do estresse. Cada pessoa é única, e o que funciona para uma pode não funcionar para outra – por isso a importância do acompanhamento profissional personalizado.
Dicas práticas para lidar com os mitos
- Eduque-se sobre ansiedade: Conhecimento é poder. Quanto mais você entende sobre sua condição, menos vulnerável fica aos mitos e preconceitos. Busque informações em fontes confiáveis e profissionais qualificados.
- Crie uma rede de apoio consciente: Cerque-se de pessoas que compreendem sua jornada. Isso pode incluir familiares educados sobre o assunto, amigos empáticos, grupos de apoio ou comunidades online responsáveis.
- Pratique a autocompaixão: Quando esses mitos vierem à sua mente (e eles vão vir, porque estão enraizados na nossa cultura), lembre-se de que você não escolheu ter ansiedade. Trate-se com a mesma gentileza que trataria um amigo querido na mesma situação.
- Mantenha um diário de progresso: Anote suas pequenas vitórias, por menores que pareçam. Isso ajuda a combater o mito de que “você não está melhorando” e cria evidências concretas do seu crescimento.
- Estabeleça limites com pessoas tóxicas: Você não precisa se justificar para quem insiste em perpetuar esses mitos. Sua energia é preciosa e deve ser direcionada para sua recuperação, não para convencer outros sobre a legitimidade do seu sofrimento.
O caminho da recuperação é possível
Quero que você saiba que, independentemente do que já ouviu por aí, sua experiência com ansiedade é válida e merece cuidado. Os mitos que discutimos hoje são reflexo de uma sociedade que ainda está aprendendo a lidar com questões de saúde mental, mas isso não significa que você precisa carregar esse peso sozinha.
A recuperação da ansiedade não é linear, e está tudo bem. Haverá dias melhores e dias mais desafiadores, mas cada passo em direção ao autoconhecimento e ao tratamento adequado é uma vitória que merece ser celebrada.
Lembre-se: buscar ajuda não é sinal de fraqueza, é sinal de coragem. E você, que chegou até aqui, já demonstrou ter essa coragem em abundância.
Qual desses mitos já impactou sua jornada com ansiedade? Com carinho, Mariana 💙






