“Ah, meu filho é o arteiro da família”, “Ela é a boazinha”, “Esse aqui é o campeão em tudo”… Frases que saem da nossa boca com tanto carinho e naturalidade, não é mesmo? Mas vocês já pararam para pensar no peso que essas palavras podem ter na vida dos nossos pequenos?

Hoje quero conversar com vocês sobre algo que vejo constantemente no consultório e que me preocupa muito: como nós, sem perceber, criamos rótulos para nossos filhos que podem se tornar verdadeiras prisões emocionais.

Rótulos: quando o carinho vira armadilha

Vocês sabem aquela sensação de estar “preso” em um papel na família? Talvez você seja “a responsável”, “o palhaço”, “a sensível” ou “o forte”. E mesmo quando não está com vontade de desempenhar esse papel, sente uma pressão interna, quase uma obrigação de manter essa imagem, não é?

Pois é exatamente isso que fazemos com nossos filhos quando os rotulamos. E o mais assustador? Eles nem têm consciência disso! Simplesmente vão moldando sua personalidade para corresponder às expectativas que criamos.

O “arteiro” que não pode ser tranquilo

Imagine o João, de 6 anos, que desde pequeno ouve “Ah, o João é o arteiro da casa!”. No início, talvez ele até achasse engraçado. Mas e quando ele quer ficar quieto lendo um livro? Quando ele quer ser gentil com a irmãzinha?

Inconscientemente, ele pode sentir que não está sendo “ele mesmo” se não estiver fazendo alguma travessura. Afinal, “arteiro” é o que todos esperam dele, é como ele é conhecido, é sua “marca registrada” na família.

A “boazinha” que não pode expressar raiva

E a pequena Maria, sempre elogiada por ser “tão boazinha, tão obediente”? Ela cresce acreditando que precisa ser sempre compreensiva, sempre cedendo, sempre sorrindo. Mas e quando ela sente raiva? E quando ela quer gritar, chorar ou simplesmente dizer “não”?

Muitas vezes essas crianças crescem sem saber como lidar com emoções “menos bonitas”, porque aprenderam que seu valor estava em ser sempre a “certinha” da família.

O peso de ser “o campeão”

Agora vem uma armadilha que muitos pais não percebem: os rótulos “positivos” podem ser tão prejudiciais quanto os negativos. Quando dizemos “meu filho é campeão em tudo”, que pressão estamos colocando nessa criança?

Pensem comigo: que espaço estamos deixando para que ela falhe, para que ela seja apenas mediana em algo, para que ela tenha dificuldades? Como essa criança vai lidar com a primeira vez que não conseguir ser a melhor?

Na minha experiência clínica, vejo muitos adolescentes e jovens adultos com ansiedade de performance justamente por terem crescido com a pressão de sempre serem “os campeões”.

Como os rótulos se cristalizam

O que acontece é um processo psicológico chamado introjeção. A criança pega aquilo que ouve sobre si mesma e incorpora como parte da sua identidade. Ela passa a acreditar que:

  • “Eu SOU arteiro” (não “eu às vezes faço travessuras”)
  • “Eu SOU a boazinha” (não “eu costumo ser gentil”)
  • “Eu SOU o campeão” (não “eu me dedico e às vezes tenho bons resultados”)

Percebem a diferença? No primeiro caso, vira identidade fixa. No segundo, são características que podem variar conforme o contexto e o momento.

Os rótulos negativos: feridas que marcam

Agora imaginem os danos quando os rótulos são claramente negativos: “Esse aqui é o problemático”, “Ela é complicada”, “Você é preguiçoso mesmo”.

Crianças que crescem ouvindo isso podem desenvolver uma autoimagem tão negativa que passa a ser uma profecia que se auto-realiza. Elas agem de acordo com o que acreditam ser, confirmando o rótulo e perpetuando o ciclo.

E como podemos fazer diferente?

1. Observe suas palavras

Prestem atenção no que vocês falam sobre seus filhos, tanto na frente deles quanto para outras pessoas. Vocês estão descrevendo comportamentos específicos ou definindo a personalidade deles?

2. Foque no comportamento, não na pessoa

Em vez de “Você é bagunceiro”, try “Hoje você está deixando os brinquedos espalhados”. A diferença é sutil, mas poderosa!

3. Celebre a diversidade emocional

Ensinem seus filhos que é normal e saudável ter diferentes emoções e comportamentos. A “boazinha” pode ter dias de irritação, e tudo bem!

4. Evite comparações entre irmãos

“A Maria é a estudiosa, o João é o esportista” pode parecer justo, mas limita as possibilidades de cada um descobrir outros talentos.

5. Permita mudanças e crescimento

Se seu filho sempre foi tímido e de repente quer fazer teatro, celebrate essa descoberta ao invés de dizer “Mas você é tão quietinho!”.

O poder transformador de palavras conscientes

Quando mudamos nossa forma de falar sobre nossos filhos, estamos dando a eles o presente da liberdade de ser. Liberdade para explorar diferentes aspectos da personalidade, para crescer, para mudar, para ser humano em toda sua complexidade.

Em vez de “João é arteiro”, que tal “João tem uma energia incrível e uma curiosidade grande pelo mundo”? Em vez de “Maria é boazinha”, que tal “Maria demonstra muito carinho e empatia pelas pessoas”?

📱 Quer ver mais sobre esse tema?

Se você está gostando desta reflexão, não deixe de assistir ao vídeo que gravei sobre rótulos no meu Instagram @mariana.deluccia! Lá eu conto mais detalhes e exemplos práticos que podem te ajudar a identificar esses padrões no dia a dia. Vale muito a pena!

Uma reflexão final

Nossos filhos não vieram ao mundo para preencher rótulos ou atender expectativas. Eles vieram para descobrir quem são, e nosso papel é dar suporte nessa jornada de autoconhecimento, não definir o roteiro.

Que tal fazermos um exercício? Esta semana, prestem atenção nas palavras que usam para descrever seus filhos. Vocês se surpreenderão com quantos rótulos usamos sem perceber.

E lembrem-se: nunca é tarde para mudar. Se vocês reconheceram que andam rotulando seus pequenos, conversem com eles. Expliquem que eles são pessoas complexas e maravilhosas, capazes de ser muitas coisas diferentes.


E aí, conseguiram se reconhecer em alguma situação? Ou lembraram de rótulos da própria infância? Compartilhem suas reflexões nos comentários – é sempre rico trocarmos experiências sobre esse tema tão importante!

Com carinho e reflexão,
Mariana

Mariana De Luccia

Uma carreira sólida construída através de muito aprendizado com especial atenção a cada um de meus pacientes e alunos. . Mestra em Distúrbios do Desenvolvimento pela Universidade Presbiteriana Mackenzie . Especialista em Psicologia Hospitalar pela Santa Casa de Misericórdia de São Paulo . Especialista em Psicologia Clínica pelo CEP – Centro de Estudos Psicanalíticos . Atuação como docente do curso de Psicologia e Coordenadora da Clínica de Psicologia Aplicada no Centro Universitário Unifafibe

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