Você já sentiu aquele frio na barriga antes de uma reunião escolar? Aquela sensação de que qualquer pergunta sobre seu filho pode soar como crítica ou cobrança excessiva? Se identificou, você não está sozinha nessa jornada.

Por que nos sentimos assim diante da escola?

Primeiro, vamos normalizar esse sentimento. A relação entre família e escola mexe com questões profundas da maternidade e paternidade. Quando nosso filho apresenta alguma dificuldade ou comportamento diferente, é natural que nosso instinto protetor se ative. O problema é que, muitas vezes, essa proteção pode ser interpretada como interferência excessiva.

Segundo pesquisa realizada pela Fundação Carlos Chagas em 2023, 73% dos professores relatam que a comunicação com as famílias é um dos maiores desafios da profissão. Por outro lado, 68% dos pais se sentem inseguros ao abordar questões escolares, temendo parecer invasivos. Esses dados mostram que estamos todos no mesmo barco, tentando navegar da melhor forma possível.

A verdade é que professores e pais querem a mesma coisa: o melhor desenvolvimento da criança. O segredo está em encontrar a linguagem comum para essa parceria dar certo.

O que realmente incomoda os professores?

Antes de falarmos sobre como fazer certo, vamos entender o que pode gerar desconforto na relação. Não é a preocupação genuína que incomoda, mas sim algumas atitudes que podem soar como desconfiança ou desrespeito ao trabalho pedagógico.

Questionar métodos de ensino publicamente, fazer comparações constantes com outras escolas ou crianças, ou tentar dirigir as atividades em sala são comportamentos que podem criar tensão. Da mesma forma, mensagens excessivas no WhatsApp ou cobranças que extrapolam o horário de trabalho do professor também podem gerar desconforto.

O importante é lembrar que existe uma diferença entre acompanhar de perto e controlar. O acompanhamento saudável envolve interesse genuíno, confiança na equipe escolar e colaboração. Já o controle vem carregado de ansiedade, desconfiança e tentativa de microgerenciar situações que fogem do nosso alcance.

A arte da comunicação assertiva com a escola

Comunicação assertiva é aquela que expressa nossas necessidades e preocupações de forma clara, respeitosa e objetiva. No contexto escolar, isso significa conseguir falar sobre nossas inquietações sem soar acusatório ou defensivo.

Comece sempre reconhecendo o trabalho da professora. Uma frase como “Percebo o carinho que você tem com a turma” ou “Vejo como meu filho gosta das suas aulas” cria um ambiente de parceria desde o início da conversa. Isso não é bajulação, é reconhecimento genuíno do esforço profissional.

Quando for abordar uma preocupação, use a técnica do “sanduíche”: comece com algo positivo, apresente sua questão de forma objetiva e termine reforçando sua confiança na parceria. Por exemplo: “João tem falado muito bem das atividades de matemática. Tenho notado que ele fica um pouco ansioso na hora do recreio. Como podemos trabalhar juntas para ajudá-lo nesse momento?”

“📱 Compartilho mais dicas sobre comunicação família-escola no Instagram @mariana.deluccia. Vem fazer parte dessa conversa que é sobre cuidar de quem mais amamos!”

Timing é tudo: quando e como abordar questões

Escolher o momento certo para uma conversa pode fazer toda a diferença no resultado. Evite abordar questões complexas na porta da sala, na frente de outras crianças ou em momentos de correria. Professores, assim como todos nós, precisam de espaço mental para processar e responder adequadamente às nossas preocupações.

Agende uma conversa quando realmente for necessário. Nem toda situação precisa de intervenção imediata. Crianças passam por fases, têm dias difíceis e precisam de tempo para se adaptar. Observe por alguns dias antes de levar uma questão para a escola.

Quando marcar uma reunião, seja específica sobre o motivo. “Gostaria de conversar sobre como posso ajudar João com a organização do material” é muito mais direcionado que “precisamos conversar sobre o João”. Isso permite que a professora se prepare adequadamente para o encontro.

Transformando preocupações em parcerias

Uma das mudanças mais poderosas que podemos fazer é transformar nossas preocupações em oportunidades de parceria. Em vez de chegar com problemas, chegue com curiosidade genuína sobre como podem trabalhar juntas.

Se seu filho está com dificuldade em matemática, em vez de questionar o método de ensino, pergunte: “Como posso reforçar em casa o que vocês estão trabalhando?”. Se ele está tímido demais, explore: “Que estratégias têm funcionado para encorajá-lo a participar mais?”. Essa mudança de perspectiva transforma você de “fiscalizadora” em “parceira de desenvolvimento”.

Lembre-se de que professores são profissionais capacitados que lidam diariamente com dezenas de crianças diferentes. Eles têm um olhar técnico e experiência acumulada que pode nos ensinar muito sobre nossos próprios filhos. Estar aberta a aprender com essa expertise é um sinal de maturidade emocional.

Dicas práticas para uma comunicação eficaz

  • Prepare-se antes da conversa: Anote suas principais preocupações e organize os pontos que quer abordar. Isso evita que você esqueça algo importante ou que a conversa se disperse em questões menores.
  • Use “eu” em vez de “você”: “Eu tenho notado que…” soa muito menos acusatório que “Você não está…”. Essa pequena mudança na linguagem faz uma diferença enorme na receptividade da mensagem.
  • Seja específica com exemplos: Em vez de dizer “ele está triste”, descreva comportamentos observáveis: “Ele tem chegado em casa mais quieto e não quer falar sobre o recreio”. Isso ajuda a professora a entender melhor a situação.
  • Pergunte sobre o contexto escolar: “Como ele tem se comportado aqui na escola?” pode revelar informações importantes que você não tem em casa. Às vezes, comportamentos são específicos de um ambiente.
  • Estabeleça combinados claros: Termine a conversa definindo próximos passos concretos. “Vamos observar por duas semanas e conversar novamente” ou “Vou trabalhar isso em casa e você me conta como ele reagir aqui”.

O poder da confiança na relação escola-família

Construir confiança é um processo que acontece no dia a dia, nas pequenas interações e na forma como nos posicionamos diante dos desafios. Quando demonstramos que confiamos no trabalho da escola, criamos espaço para uma parceria verdadeira.

Isso não significa concordar cegamente com tudo ou não questionar nunca. Significa partir do pressuposto de que todos ali querem o melhor para seu filho e que eventuais divergências podem ser resolvidas através do diálogo respeitoso.

Lembre-se também de celebrar os acertos. Quando algo der certo, quando seu filho superar uma dificuldade ou quando a estratégia combinada funcionar, compartilhe essa alegria com a professora. Reconhecimento positivo fortalece vínculos e motiva todos os envolvidos.

A jornada escolar dos nossos filhos é longa e cheia de aprendizados – não só para eles, mas para nós também. Cada conversa com a professora é uma oportunidade de crescermos como pais, de entendermos melhor nossos filhos e de construirmos uma rede de apoio sólida para seu desenvolvimento. O segredo não está em ser a mãe perfeita que nunca se preocupa, mas sim em canalizar essa preocupação natural de forma construtiva e colaborativa.

Como você tem vivido essa relação com a escola do seu filho? Com carinho, Mariana 💙

Mariana De Luccia Rivaben

Uma carreira sólida construída através de muito aprendizado com especial atenção a cada um de meus pacientes e alunos. >> Mestra em Distúrbios do Desenvolvimento pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. >> Especialista em Psicologia Hospitalar pela Santa Casa de Misericórdia de São Paulo. >> Especialista em Psicologia Clínica pelo CEP – Centro de Estudos Psicanalíticos. >> Atuação como docente do curso de Psicologia e Coordenadora da Clínica de Psicologia Aplicada no Centro Universitário Unifafibe.

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