Você já se pegou pensando: “Eu sou assim por causa do que fizeram comigo”? Talvez sua mãe tenha te ferido de um jeito que ainda dói, seu pai tenha sido ausente quando você mais precisava, ou alguém tenha te rejeitado, humilhado ou abandonado em um momento que moldou quem você é. Essas experiências são reais, as dores são legítimas, e sim, as pessoas que te feriram são responsáveis pelo que fizeram. Mas existe uma pergunta que, cedo ou tarde, a vida coloca na sua frente, e eu quero te convidar a olhar para ela com coragem hoje.

A dor que te formou é real, e ela merece ser reconhecida

Antes de qualquer coisa, preciso dizer isso com muita clareza: o que aconteceu com você importa. A psicologia não minimiza histórias de abandono, rejeição, humilhação ou negligência. Pelo contrário. Sabemos, inclusive com base em décadas de pesquisa, que experiências adversas na infância deixam marcas profundas no desenvolvimento emocional, cognitivo e até físico de uma pessoa.

Um estudo clássico e amplamente citado, o ACE Study (Adverse Childhood Experiences), conduzido pelos Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA em parceria com a Kaiser Permanente, acompanhou mais de 17 mil pessoas e mostrou que experiências traumáticas na infância estão diretamente associadas a dificuldades emocionais, relacionamentos instáveis e até problemas de saúde na vida adulta. Ou seja: a ciência confirma que o que acontece com a gente quando somos pequenas importa muito.

Então não, eu não estou aqui para dizer que você está exagerando ou que deveria “superar logo”. Estou dizendo que sua dor tem nome, tem explicação e tem lugar.

Explicar não é o mesmo que justificar

Aqui começa a parte mais delicada da conversa, e eu quero te pedir que respire fundo antes de continuar lendo.

Existe uma diferença enorme entre explicar e justificar. Quando dizemos “eu sou insegura porque minha mãe sempre me criticava”, estamos explicando uma origem, traçando um caminho entre causa e consequência. Isso é saudável, é necessário, é terapêutico. Mas quando essa explicação vira uma residência permanente, quando ela se transforma em um lugar onde a gente mora e se recusa a sair, ela deixa de ser compreensão e passa a ser uma prisão.

“Eu não sei me relacionar porque meu pai foi ausente.” Pode ser verdade. Mas o seu pai ausente ainda está comandando os seus relacionamentos hoje? Essa é a pergunta que vale a pena fazer.

A psicanálise nos ensina que repetimos o que não elaboramos. Ou seja, enquanto não olhamos para as nossas feridas com consciência e intenção de cura, continuamos reproduzindo os mesmos padrões, como se ainda fôssemos aquela criança que foi ferida, esperando que alguém venha consertar o que foi quebrado.

O momento em que a responsabilidade muda de mãos

Tem um ponto na vida adulta em que algo precisa mudar. Não é um momento mágico, não acontece de repente, mas ele existe: é quando você percebe que continuar culpando o passado está te custando o presente.

Sua mãe pode ter te ensinado que você não era suficiente. Mas quem está te dizendo isso hoje? Seu pai pode ter te mostrado que amor e ausência andam juntos. Mas quem está escolhendo parceiros que somem quando você mais precisa? Em algum momento, amiga, a história que foi escrita por outros começa a ser continuada por nós mesmas, e aí a caneta passa a ser nossa.

Isso não é crueldade. Isso é libertação. Porque enquanto a responsabilidade pelo que você se tornou estiver nas mãos de outra pessoa, o poder também estará. E você merece ter esse poder de volta.

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Curar não é apagar, é ressignificar

Curar-se não significa fingir que nada aconteceu. Não é construir uma versão edulcorada da sua história onde tudo foi lindo e todo mundo fez o melhor que podia. Às vezes, as pessoas fizeram o pior que podiam, e isso também é verdade.

Curar é olhar para o que aconteceu e dizer: “Isso me formou, mas não me define para sempre.” É desaprender padrões que você absorveu sem escolher. É perceber que aquela voz crítica dentro da sua cabeça não é a sua voz, é a voz emprestada de alguém que também estava ferido.

E sim, esse processo dói. Às vezes dói muito. Mas a dor da cura é diferente da dor da estagnação. Uma te move, a outra te mantém presa.

Dicas práticas para começar a assumir as rédeas da sua própria história

  • Observe suas narrativas internas: Quando você se pegar pensando “sou assim porque fizeram isso comigo”, não se julgue, mas se pergunte: essa crença ainda serve para mim hoje? O que eu quero fazer com ela a partir de agora? Esse pequeno exercício de consciência já é um passo enorme.
  • Busque apoio profissional sem culpa: Psicoterapia não é fraqueza, é uma das formas mais corajosas de se responsabilizar pela própria vida. Um espaço terapêutico seguro te ajuda a elaborar o passado sem ficar refém dele, e a construir novas formas de se relacionar com você mesma e com o mundo.
  • Pratique a diferença entre compreender e se paralisar: Compreender sua história é necessário. Mas se você perceber que essa compreensão está sendo usada para evitar mudanças, para justificar comportamentos que te prejudicam ou para não se responsabilizar por escolhas atuais, é hora de dar um passo além. Entender é o começo, não o destino.
  • Celebre cada pequena escolha consciente: Toda vez que você age de forma diferente do padrão que foi imposto a você, está reescrevendo sua história. Escolheu se comunicar em vez de se fechar? Isso é cura. Pediu ajuda em vez de se isolar? Isso é cura. Não subestime os pequenos avanços.

O que fizeram com você pertence à história. O que você faz com isso, pertence a você.

Eu sei que é mais fácil, às vezes, manter a culpa do lado de fora. Porque se a culpa é de alguém que te feriu, você não precisa mudar nada. Mas se você assume que tem poder sobre a sua própria vida, aí vem a responsabilidade, e com ela, o trabalho. E esse trabalho pode ser assustador.

Mas sabe o que está do outro lado desse trabalho? Uma versão sua que não é mais controlada por feridas antigas. Uma mulher que escolhe quem quer ser, não porque nunca foi ferida, mas porque decidiu que a sua dor não teria a última palavra.

Você pode se curar. Você pode desaprender. Você pode melhorar. Não porque o que aconteceu com você foi justo, porque provavelmente não foi. Mas porque você merece uma vida que não seja definida pelo pior que já te fizeram.

A história que te trouxe até aqui foi escrita por outros. A que vem agora é sua.

E você, já percebeu algum momento em que parou de se responsabilizar pela própria vida sem perceber? Me conta nos comentários, quero muito ouvir você. Com carinho, Mariana 💙

 

Mariana De Luccia Rivaben

Uma carreira sólida construída através de muito aprendizado com especial atenção a cada um de meus pacientes e alunos. >> Mestra em Distúrbios do Desenvolvimento pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. >> Especialista em Psicologia Hospitalar pela Santa Casa de Misericórdia de São Paulo. >> Especialista em Psicologia Clínica pelo CEP – Centro de Estudos Psicanalíticos. >> Atuação como docente do curso de Psicologia e Coordenadora da Clínica de Psicologia Aplicada no Centro Universitário Unifafibe.

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