Você já olhou para a pessoa ao seu lado e pensou: “Mas onde foi parar aquela pessoa incrível que eu conheci?” Se sim, respira fundo, porque você não está sozinha nisso, e o que vou te contar hoje pode mudar completamente a forma como você enxerga o amor. A história do sapo que vira príncipe, eu acho, foi contada para a gente de trás para frente.

No começo, a gente não se apaixona pela pessoa. A gente se apaixona pela ideia dela.

Pensa comigo: no início de um relacionamento, a outra pessoa é interessante, atenciosa, divertida. Ela aparece bem arrumada, escolhe bem as palavras, está no seu melhor. E a nossa cabeça, que é uma máquina incrível de criar narrativas, completa o resto. A gente preenche os espaços em branco com o que a gente quer ver. Com o que a gente precisa que seja verdade.

Isso tem até nome na psicologia: é o que chamamos de idealização. Na fase inicial do amor romântico, o cérebro libera dopamina, ocitocina e noradrenalina em doses generosas, criando uma espécie de efeito anestésico para os defeitos do outro. Um estudo publicado no Journal of Neurophysiology (Aron et al., 2005) mostrou que o cérebro de pessoas apaixonadas apresenta ativação intensa nas áreas ligadas à recompensa e ao prazer, as mesmas ativadas por substâncias como cocaína. Não é exagero dizer que o amor no começo é, literalmente, uma espécie de euforia química.

E não tem nada de errado com isso. O problema começa quando a gente acha que esse estado é o amor de verdade. E que quando ele passa, algo deu errado.

Aí vem a convivência. E com ela, o sapo aparece.

De perto aparecem as manias, os dias ruins, as inseguranças, os silêncios pesados, as birras, os medos. A pessoa que parecia perfeita agora range os dentes dormindo, esquece de responder mensagens, fica de mau humor por coisas pequenas e tem traumas que às vezes transbordam de formas nada bonitas.

E a gente fica confusa. Será que escolheu errado? Será que o amor acabou? Será que é isso mesmo?

Mas eu quero te propor uma outra leitura: intimidade não é descobrir que você escolheu a pessoa errada. É descobrir uma pessoa real depois que a fantasia acaba. E esse é um momento que pode ser assustador, mas também é o momento em que o amor de verdade tem a chance de começar.

A psicanálise nos ensina que toda relação passa por esse movimento. Freud já descrevia como a idealização do outro é parte do processo de apaixonamento, mas que a maturidade afetiva exige que a gente consiga sustentar uma imagem mais integrada do outro: alguém que tem qualidades e defeitos, que nos decepciona e nos surpreende, que é real.

Amadurecer no amor é parar de procurar o príncipe eterno

A cultura que nos criou vendeu uma ideia muito perigosa: a de que o amor verdadeiro é aquele que não dói, não cansa, não exige esforço. Que quando é certo, flui. Que o príncipe encantado não tem dias difíceis.

Mas relacionamentos reais são feitos de escolhas diárias. De decidir ficar mesmo quando está difícil. De aprender a linguagem do outro. De reparar quando machucou. De crescer junto, mesmo que isso doa um pouco.

Amadurecer no amor é entender que no fundo, todo mundo é um pouco sapo. Você também. Eu também. E a pergunta que realmente importa não é “essa pessoa ainda é perfeita?” mas sim: com qual sapo você ainda escolheria dividir a sua vida?

Isso não significa aceitar qualquer coisa. Não é sobre tolerar desrespeito, violência ou relacionamentos que te diminuem. É sobre distinguir o que é imperfeição humana do que é incompatibilidade real ou comportamento prejudicial.

“📱 Falo muito sobre relacionamentos, vínculos e saúde emocional no Instagram @mariana.deluccia. Se esse tema te tocou, vem me acompanhar por lá e continuar essa conversa.

Como cultivar um amor mais real e mais maduro

  • Questione a idealização sem culpa: Perceber que você idealizou alguém não significa que você é ingênua ou que o relacionamento não presta. É humano. O que importa é o que você faz com essa percepção. Pergunte-se: o que eu projeto no outro que talvez seja mais sobre mim do que sobre ele ou ela?
  • Diferencie decepção de incompatibilidade: Ser decepcionada é diferente de estar com a pessoa errada. Toda relação íntima vai gerar decepções, porque ninguém consegue ser tudo que o outro imaginou. A questão é se, além das decepções, existe respeito, afeto e vontade de construir junto.
  • Invista na comunicação antes de tirar conclusões: Muitos relacionamentos terminam não porque as pessoas são incompatíveis, mas porque nunca aprenderam a se dizer. Antes de concluir que o amor acabou, pergunte-se: eu disse o que me machuca? Eu ouvi o que o outro sente? A conversa real aconteceu?
  • Busque apoio quando necessário: A psicoterapia é um espaço valioso para entender os padrões que você repete nos relacionamentos, o que você busca no outro, e o que suas escolhas afetivas dizem sobre a sua história. Não precisa esperar uma crise para cuidar da sua vida emocional.
  • Pratique a aceitação ativa: Aceitar o outro como ele é não é resignação passiva. É uma escolha consciente e amorosa de dizer: eu te vejo inteiro, com tudo que você é, e ainda assim escolho estar aqui. Isso é muito mais bonito do que amar uma fantasia.

O amor que fica é o que escolhe ficar

Existe algo muito mais bonito e muito mais profundo do que o amor dos contos de fada: é o amor que sobreviveu à realidade. Que viu o sapo e decidiu ficar. Não por comodidade, não por medo, mas por escolha genuína.

Quando a fantasia cai, o que aparece pode ser assustador. Mas também pode ser a coisa mais íntima e verdadeira que você já viveu. Porque amar alguém de verdade é amar uma pessoa real, com história, com feridas, com dias ruins e com uma beleza que só aparece de perto.

E talvez o maior presente que um relacionamento pode te dar não seja um príncipe encantado, mas um sapo honesto, que te escolhe todos os dias, mesmo sabendo que você também é um pouco sapo.

Isso, para mim, é o amor que vale a pena.

E você, já viveu esse momento em que a fantasia caiu e você precisou decidir o que fazer com a pessoa real que apareceu? Me conta nos comentários, quero muito ouvir a sua história. Com carinho, Mariana 💙

Mariana De Luccia Rivaben

Uma carreira sólida construída através de muito aprendizado com especial atenção a cada um de meus pacientes e alunos. >> Mestra em Distúrbios do Desenvolvimento pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. >> Especialista em Psicologia Hospitalar pela Santa Casa de Misericórdia de São Paulo. >> Especialista em Psicologia Clínica pelo CEP – Centro de Estudos Psicanalíticos. >> Atuação como docente do curso de Psicologia e Coordenadora da Clínica de Psicologia Aplicada no Centro Universitário Unifafibe.

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