Cada um sofre do seu jeito: o que ninguém te conta sobre despedidas em UTI

Você já ficou do lado de fora de uma UTI enquanto alguém que você ama estava lá dentro? Ou talvez você seja aquela pessoa que não conseguiu entrar, que ficou parada na porta, com o coração apertado e os pés pesados demais para dar aquele passo? Seja qual for o seu lugar nessa história, eu preciso te dizer uma coisa: não existe jeito certo de sofrer.

A cena que muita gente conhece, mas pouco se fala

Deixa eu te contar uma história real. Quando meu avô foi internado na UTI, a gente morava numa cidade pequena, sem muito suporte, e eram mais de uma hora de viagem até o hospital. Mesmo assim, todos os dias meu pai pegava o carro e ia. Eu ia junto. A gente fazia aquele percurso inteiro, chegava lá, e eu entrava. Meu pai ficava na porta. Ele não conseguia entrar.

Por muito tempo eu fiquei com aquela cena na cabeça tentando entender. Meu pai, que amava o avô do jeito mais profundo que eu já vi alguém amar, fazia uma hora de estrada todos os dias, mas não conseguia ultrapassar aquela porta. E sabe o que eu aprendi com isso? Que o amor dele não era menor. O sofrimento dele não era menor. A forma de expressar é que era diferente.

Por que cada um reage de um jeito diante da morte?

A psicologia nos ensina que o luto, e tudo que vem antes dele, o chamado luto antecipatório, é uma experiência profundamente individual. A pesquisadora Pauline Boss, da Universidade de Minnesota, cunhou o conceito de perda ambígua para descrever exatamente esse tipo de situação: quando a pessoa ainda está viva, mas você já sente que está perdendo. É um estado de suspensão emocional que ativa mecanismos de defesa muito diferentes em cada um de nós.

Tem gente que precisa estar presente, segurar a mão, olhar nos olhos. Isso é uma forma de processar. Tem gente que paralisa, que não consegue entrar no quarto, que evita a visita. Isso também é uma forma de processar. Nenhuma das duas é errada. Nenhuma das duas significa amar mais ou amar menos.

Um estudo publicado no Journal of Pain and Symptom Management mostrou que familiares de pacientes em cuidados paliativos apresentam níveis de sofrimento psicológico comparáveis, e em alguns casos maiores, do que os próprios pacientes. O que varia não é a intensidade da dor, mas o comportamento que essa dor gera em cada pessoa.

O perigo do julgamento silencioso

A gente tem um hábito muito humano, e muito cruel, de medir o sofrimento alheio pelo que consegue ver. Se a pessoa chora muito, está sofrendo. Se foi todos os dias ao hospital, está sofrendo. Se ficou até o último momento, amava de verdade. E quem não fez isso? Quem ficou na porta? Quem não conseguiu entrar? Ah, esse não estava sentindo tanto assim.

Mas isso é uma armadilha. O sofrimento não tem régua. A dor que fica guardada dentro do peito, que não se mostra, que paralisa em vez de mobilizar, essa dor existe. Ela é real. E muitas vezes é ainda mais solitária, porque além de sofrer, a pessoa ainda carrega o peso de ser mal interpretada.

Na minha prática clínica, especialmente no contexto hospitalar, eu já atendi pessoas que não foram visitar um familiar em fase terminal e que, anos depois, ainda carregavam uma culpa enorme por isso. Não porque não amavam. Mas porque o sistema nervoso delas simplesmente não encontrou outro caminho que não fosse a paralisia.

“📱 Falo muito sobre luto, vínculos e saúde emocional no Instagram @mariana.deluccia. Se esse tema tocou em algo dentro de você, me segue por lá e vem continuar essa conversa.

O que você pode fazer quando alguém ao seu redor está nesse lugar

  • Suspenda o julgamento antes de emiti-lo. Quando você sentir vontade de dizer “mas ele nem foi visitar”, respira fundo. Você não sabe o que está acontecendo dentro daquela pessoa. O comportamento visível é só a ponta do iceberg de um mundo interno que você não tem acesso.
  • Ofereça presença, não cobrança. Se alguém que você ama está com dificuldade de encarar uma situação de fim de vida, pergunte como ela está se sentindo, o que ela precisa. Às vezes um “eu entendo que é difícil para você” vale mais do que qualquer conselho sobre o que ela deveria fazer.
  • Respeite o seu próprio ritmo também. Se você é aquela pessoa que não consegue entrar na UTI, que evita o hospital, que paralisa diante da despedida, não se puna por isso. Reconheça que você está sofrendo à sua maneira e, se possível, busque apoio psicológico. Não porque você está errada, mas porque você merece ter um espaço para processar tudo isso.
  • Lembre que não existe despedida perfeita. A cultura popular romantiza muito o “último adeus”, como se precisasse ser um momento cinematográfico, com tudo dito e resolvido. Na vida real, muitas vezes a despedida é confusa, incompleta, dolorosa. E ainda assim, ela é válida.
  • Fale sobre isso depois. O luto que vem após a perda carrega também o peso de tudo que aconteceu antes. Conversas com um profissional de saúde mental podem ajudar a reorganizar sentimentos de culpa, arrependimento ou incompreensão que ficam após a perda.

Amor não tem uma única linguagem na dor

Assim como o amor tem linguagens diferentes no dia a dia, como nos ensinou Gary Chapman, o sofrimento também tem as suas. Tem gente que sofre em silêncio. Tem gente que sofre em movimento. Tem gente que sofre na paralisia. Tem gente que sofre na presença constante. Todas essas formas são legítimas.

Meu pai nunca entrou naquela UTI. Mas fez uma hora de estrada todos os dias até o hospital. Ficou do lado de fora, na sala de espera, esperando. E quando meu avô foi embora, o sofrimento dele foi tão real, tão profundo, tão devastador quanto o de qualquer pessoa que tivesse estado dentro daquele quarto.

A gente aprende muito sobre o ser humano quando para de julgar como ele sofre e começa a perguntar o que ele precisa. Esse é um dos maiores atos de cuidado que podemos oferecer uns aos outros, especialmente nos momentos mais difíceis da vida.

Se você já passou por uma situação assim, seja como aquele que entrou, aquele que ficou na porta ou aquele que estava na cama, a sua história importa. O seu jeito de ter vivido aquele momento importa. E você não precisa justificar para ninguém como você amou e como você sofreu.

Você já viveu uma situação assim? Ficou na porta ou foi até o final? Conta aqui nos comentários, sem julgamento nenhum, porque cada história merece ser ouvida com carinho. Com carinho, Mariana 💙

Mariana De Luccia Rivaben

Uma carreira sólida construída através de muito aprendizado com especial atenção a cada um de meus pacientes e alunos. >> Mestra em Distúrbios do Desenvolvimento pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. >> Especialista em Psicologia Hospitalar pela Santa Casa de Misericórdia de São Paulo. >> Especialista em Psicologia Clínica pelo CEP – Centro de Estudos Psicanalíticos. >> Atuação como docente do curso de Psicologia e Coordenadora da Clínica de Psicologia Aplicada no Centro Universitário Unifafibe.

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