Raiva como identidade: por que nunca foi tão fácil encontrar alguém para odiar junto
Você abre o celular de manhã e, antes mesmo do café esfriar, já se depara com alguém indignado com alguma coisa. Com alguém que casou cedo demais, com alguém que não quer ter filhos, com uma geração inteira, com uma opinião, com uma escolha de vida que não tem nada a ver com a sua. E o mais curioso? Você provavelmente vai encontrar uma multidão concordando, aplaudindo, compartilhando. Parece que o sentimento coletivo da vez não é alegria, não é esperança, é raiva. E a psicologia tem muito a dizer sobre isso.
Odiar junto também cria laços, e isso não é exagero
Pode parecer estranho, mas a ciência confirma: a rejeição compartilhada une pessoas de forma tão poderosa quanto os gostos em comum. Um estudo publicado no periódico Personality and Social Psychology Bulletin (Bosson et al., 2006) mostrou que compartilhar antipatias cria vínculos interpessoais tão fortes, ou até mais fortes, do que compartilhar preferências positivas. Os pesquisadores chamaram esse fenômeno de “bonding over shared dislike”, ou seja, a união pelo ódio compartilhado.
Isso acontece porque pertencer a um grupo é uma necessidade humana profunda. Desde os primórdios, fazer parte de uma tribo significava sobrevivência. E uma das formas mais rápidas de identificar quem está do seu lado é descobrir quem vocês dois rejeitam juntos. Quando alguém diz “eu também não suporto isso”, o cérebro interpreta: essa pessoa é como eu, posso confiar nela. É primitivo. É poderoso. E hoje, nas redes sociais, é explorado de forma muito intencional.
As redes sociais descobriram o filão da indignação
Não é coincidência que os posts mais comentados quase sempre são os mais polêmicos. As plataformas digitais aprenderam, através dos próprios algoritmos, que a raiva prende atenção, gera engajamento e mantém as pessoas rolando a tela por mais tempo. Um relatório interno do Facebook, vazado em 2021 e amplamente divulgado pela imprensa internacional, revelou que a empresa tinha conhecimento de que seus algoritmos amplificavam conteúdos que geravam reações emocionais intensas, especialmente raiva e indignação, porque esses conteúdos aumentavam o tempo de uso da plataforma.
Em outras palavras: a sua raiva vale dinheiro. E o ambiente foi desenhado para alimentá-la.
Isso cria um ciclo perigoso. Você entra na rede em busca de conexão, se depara com um conteúdo indignante, reage, encontra pessoas reagindo igual a você, sente pertencimento, e volta amanhã para repetir o processo. A raiva deixa de ser uma emoção passageira e começa a se tornar um ponto de encontro, uma identidade.
Quando a raiva vira identidade, você precisa de um inimigo para existir
Aqui mora o problema mais sério. Quando a raiva deixa de ser uma resposta emocional a uma situação específica e passa a ser o centro da sua identidade, algo muda na sua forma de se relacionar com o mundo. Você começa a precisar de um inimigo para se sentir parte de algo. E se o inimigo some, a identidade fica vazia.
Na psicanálise, isso tem relação com o que Freud chamou de formação reativa e com o que estudiosos posteriores desenvolveram sobre a construção do “outro” como objeto de projeção. Simplificando: quando não consigo integrar partes difíceis de mim mesmo, projeto essas partes em alguém de fora e passo a combatê-las ali. O “inimigo” externo se torna o repositório de tudo que não quero ver em mim. E odiá-lo, coletivamente, me dá uma sensação de pureza, de estar do lado certo.
O resultado? Grupos cada vez mais fechados, menos tolerância ao diferente, mais dificuldade de dialogar, e uma fadiga emocional silenciosa que muita gente sente mas não sabe nomear.
“📱 Tenho falado bastante sobre emoções, vínculos e saúde mental nas redes no Instagram @mariana.deluccia. Se esse assunto te tocou, me segue por lá e continua essa conversa comigo. 💙“
O que você pode fazer diante disso tudo?
Não se trata de fingir que a raiva não existe, ela é uma emoção legítima e necessária. O problema é quando ela deixa de ser um sinal e vira um estilo de vida. Algumas atitudes práticas podem ajudar:
- Observe o padrão, não só o conteúdo: Antes de compartilhar algo que te gerou raiva, pergunte a si mesmo: “Eu estou reagindo a uma situação real ou estou sendo ativado por um gatilho antigo?” Muitas vezes o que nos indigna nas redes toca em feridas muito anteriores ao post em questão.
- Questione o pertencimento que você está buscando: Se você percebe que se sente mais próximo de pessoas quando o assunto é o que vocês odeiam juntos, vale a pena refletir. Conexões construídas só sobre rejeição tendem a ser frágeis e ansiogênicas. Busque grupos onde o ponto de encontro seja também o que vocês constroem, admiram ou criam juntos.
- Cuide do seu consumo digital com intenção: Estabeleça horários para checar redes sociais e observe como você se sente antes e depois. Se você entra bem e sai irritado com frequência, o ambiente está te adoecendo. Não é fraqueza reconhecer isso, é autocuidado.
- Nomeie a emoção por baixo da raiva: A raiva quase sempre é uma emoção secundária. Embaixo dela, geralmente há medo, frustração, tristeza ou sensação de injustiça. Quando conseguimos nomear o que está por baixo, a raiva perde um pouco do seu poder de nos dominar.
- Permita-se discordar sem precisar destruir: Discordância saudável é possível e necessária para a democracia e para os relacionamentos. Treinar a tolerância à diferença, mesmo que seja desconfortável, é um exercício de saúde mental que ninguém te ensinou na escola, mas que faz toda a diferença.
A raiva que liberta versus a raiva que aprisiona
Existe uma raiva saudável: aquela que nos move em direção à justiça, que nos faz colocar limites, que nos impede de aceitar o inaceitável. Essa raiva é aliada. O problema é a raiva que se torna crônica, que nos define, que nos fecha, que nos faz enxergar o mundo inteiro como ameaça. Essa raiva cansa. E ela cobra um preço alto, na saúde, nos relacionamentos e na nossa capacidade de sentir alegria.
Se você chegou até aqui e se reconheceu em alguma parte desse texto, saiba que isso não é fraqueza. É consciência. E consciência é sempre o primeiro passo para qualquer mudança real.
O mundo online vai continuar oferecendo inimigos de bandeja. A pergunta que fica é: o que você quer escolher como centro da sua identidade? O que você odeia, ou o que você ama?
Você também percebeu essa cultura do ódio coletivo nas redes? Como você tem lidado com isso no dia a dia? Com carinho, Mariana 💙







