Você já rolou o feed do Instagram e se sentiu a pior mãe do mundo? Aquela sensação de que todas as outras mulheres têm tudo sob controle enquanto você mal conseguiu escovar os dentes hoje? Se identificou, você não está sozinha nessa.

A ilusão da maternidade perfeita nas redes sociais

As redes sociais criaram um palco onde a maternidade é apresentada como um espetáculo de perfeição. Vemos mães sempre arrumadas, casas impecáveis, crianças comportadas e sorridentes, lanches nutritivos em formatos de bichinhos e atividades pedagógicas criativas todos os dias. Mas aqui está a verdade que ninguém conta: isso é apenas a versão editada da realidade.

Segundo pesquisa publicada no Journal of Social and Clinical Psychology em 2023, mães que passam mais de duas horas diárias em redes sociais apresentam 40% mais chances de desenvolver sintomas de inadequação maternal e ansiedade relacionada à criação dos filhos. Esses dados revelam o impacto real que a comparação constante pode ter em nossa saúde mental.

O que não vemos são os momentos de exaustão, as birras no supermercado, as noites mal dormidas, os pratos de comida jogados no chão, as lágrimas de cansaço e a sensação de estar falhando constantemente. Essas cenas não ganham likes, então ficam escondidas nos bastidores da vida real.

O fenômeno da comparação social digital

Nossa mente está biologicamente programada para comparar. É um mecanismo de sobrevivência que nos ajudou a evoluir como espécie. Porém, nas redes sociais, essa tendência natural se torna uma armadilha emocional perigosa.

Quando vemos outras mães compartilhando seus “sucessos” parentais, nosso cérebro automaticamente faz comparações. O problema é que estamos comparando nossa realidade completa – com todos os altos e baixos – com os momentos cuidadosamente selecionados e filtrados da vida alheia.

É como comparar um filme inteiro com apenas o trailer dos sucessos de outras pessoas. Não faz sentido, mas nosso cérebro não consegue processar essa diferença de forma racional quando estamos emocionalmente vulneráveis, como frequentemente nos sentimos na maternidade.

Os algoritmos que alimentam nossa insegurança

As plataformas digitais são programadas para nos manter conectadas o maior tempo possível. Para isso, elas mostram conteúdos que geram engajamento – e nada gera mais engajamento do que conteúdo que desperta emoções intensas, incluindo a inveja, a inadequação e a necessidade de validação.

Quando você para para olhar aquela foto da mãe com a casa perfeita, o algoritmo interpreta isso como interesse e passa a mostrar mais conteúdo similar. Sem perceber, você fica presa em uma bolha de “perfeição maternal” que não representa a realidade da maioria das famílias.

📱 *Compartilho reflexões sobre maternidade real e saúde mental materna no Instagram @mariana.deluccia. Vem fazer parte dessa conversa honesta sobre os desafios de ser mãe!*

O peso das expectativas irreais

A pressão por ser uma “mãe perfeita” não é nova, mas as redes sociais amplificaram essa cobrança de forma exponencial. Agora, além de lidar com as expectativas da família, da sociedade e nossas próprias, ainda temos que enfrentar o bombardeio constante de “inspirações” sobre como deveríamos estar criando nossos filhos.

Essa pressão constante pode levar ao que chamamos de “síndrome da mãe inadequada” – um conjunto de sentimentos que incluem culpa crônica, sensação de fracasso, ansiedade relacionada à performance maternal e baixa autoestima. Esses sentimentos não apenas prejudicam nosso bem-estar, mas também podem impactar nossa relação com os filhos.

É importante lembrar que a maternidade “instagramável” muitas vezes requer recursos que nem todas temos: tempo livre, dinheiro para materiais e atividades, ajuda doméstica, parceiros presentes, ou simplesmente energia física e emocional que pode estar em falta em determinados momentos da nossa vida.

Estratégias para proteger sua saúde mental

A boa notícia é que podemos mudar nossa relação com as redes sociais e proteger nossa saúde mental sem necessariamente abandoná-las completamente. Aqui estão algumas estratégias práticas que recomendo:

  • Pratique o “unfollow consciente”: Se uma conta te faz sentir mal sobre sua maternidade consistentemente, não hesite em parar de seguir. Sua saúde mental vale mais que a polidez digital. Procure seguir perfis que mostram a maternidade real, com seus desafios e imperfeições.
  • Estabeleça horários específicos para redes sociais: Evite rolar o feed logo ao acordar ou antes de dormir, momentos em que estamos mais vulneráveis emocionalmente. Defina períodos específicos do dia para checar suas redes e respeite esses limites.
  • Desenvolva o pensamento crítico digital: Sempre que ver uma postagem “perfeita”, lembre-se conscientemente de que aquilo representa apenas alguns segundos da vida daquela pessoa. Pergunte-se: “O que não estou vendo nesta imagem?” e “Como eu me sentiria se postasse apenas meus melhores momentos?”
  • Crie sua própria narrativa real: Se você posta sobre maternidade, inclua também os momentos difíceis e imperfeitos. Isso não só ajuda outras mães a se sentirem menos sozinhas, como também te ajuda a normalizar que a maternidade tem altos e baixos.
  • Busque conexões reais: Invista em relacionamentos offline com outras mães. Conversas honestas sobre os desafios da maternidade são muito mais nutritivas que likes em redes sociais.

Redefinindo o sucesso maternal

É hora de redefinirmos o que significa ser uma “boa mãe”. Sucesso na maternidade não se mede pela estética do quarto das crianças, pela variedade de atividades pedagógicas que oferecemos, ou pela nossa aparência depois de uma noite mal dormida.

Uma mãe bem-sucedida é aquela que ama seus filhos, faz o melhor que pode com os recursos que tem disponíveis, e reconhece que alguns dias serão melhores que outros – e tudo bem. É aquela que cuida de si mesma para poder cuidar bem de sua família, que pede ajuda quando precisa, e que entende que criar filhos é um processo longo, cheio de aprendizados para todos os envolvidos.

Lembre-se: seus filhos não precisam de uma mãe perfeita. Eles precisam de uma mãe real, presente e que se ama o suficiente para não se destruir tentando alcançar padrões impossíveis criados por uma versão fantasiosa da realidade.

As redes sociais podem ser ferramentas incríveis para conexão, aprendizado e inspiração, mas apenas quando usadas de forma consciente e saudável. A chave está em lembrar que a vida real acontece longe das câmeras, nos momentos imperfeitos, nas conversas sinceras, nos abraços apertados depois de um dia difícil, e no amor incondicional que não precisa de filtro para ser bonito.

*E você, como tem sido sua relação com as redes sociais na maternidade? Que estratégias têm funcionado para você?* *Com carinho, Mariana* 💙

Mariana De Luccia Rivaben

Uma carreira sólida construída através de muito aprendizado com especial atenção a cada um de meus pacientes e alunos. >> Mestra em Distúrbios do Desenvolvimento pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. >> Especialista em Psicologia Hospitalar pela Santa Casa de Misericórdia de São Paulo. >> Especialista em Psicologia Clínica pelo CEP – Centro de Estudos Psicanalíticos. >> Atuação como docente do curso de Psicologia e Coordenadora da Clínica de Psicologia Aplicada no Centro Universitário Unifafibe.

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